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Feminista É a Mãe
Infelizmente muitas mulheres fazem o jogo machista. Muitas e muitas mulheres
dizem horrorizadas : “Eu não sou feminista”.
Isso porque associam o rótulo “feminista” a uma série
de imagens horrendas, amplamente divulgadas pela nossa mídia, como
a de mulheres que querem ser superiores aos homens, mulheres que se aproveitam
das acusações de assédio sexual para, malandramente,
descolar uma grana alta, mulheres feias e mal amadas, etc.
As feministas não são nada disso.
Feministas são mulheres que lutaram e que lutam pela eliminação
dos preconceitos que cercearam e ainda cerceiam o desenvolvimento pleno
do sexo feminino.
Sem as nossas antepassadas feministas ainda estaríamos na mesma
situação social humilhante e degradante em que fomos mergulhadas
durante séculos e séculos. Não votaríamos.
Não dirigiriamos automóveis. Não trabalharíamos
fora de casa. Não teríamos liberdade sexual e nem direito
a planejar a nossa prole. Não teríamos direito à
propriedade e a nossa herança passaria automaticamente pros nossos
maridos quando nos casassemos.
Seriamos, ainda, as escravas que fomos. Seríamos ainda, na letra
da lei, equiparadas aos sílvicolas e às crianças.
Essa é que a verdade. Esses são os fatos: quem conquistou,
para as mulheres de hoje, os direitos que elas usufruem foram, sim, as
feministas e mais ninguém. Foram as mulheres que ousaram se revoltar
contra a sua condição social e pagaram altos preços
por essa revolta.
Mulheres como Emmeline Pankhurst que, no começo do século
passado, liderou as sufragistas inglesas e foi presa por 12 vezes, sofrendo
incontáveis humilhações. Mulheres como Margaret Sanger,
que, nos anos de 1910, desafiou as autoridades norte americanas publicando
informações sobre o controle da natalidade, fundando centros
de planejamento familiar e enfrentando inúmeros processos e tendo
mesmo que se afastar dos filhos e do marido e exilar-se na Inglaterra
para não sofrer os horrores do cárcere. Isso para citar
apenas dois exemplos, dos muitos que existem.
Essas mulheres sacrificaram a sua vida pessoal para que nós hoje
desfrutássemos de tudo o que a sociedade nos permite.
Nós, fêmeas, estamos cuspindo na nossa própria história.
Estamos jogando porcaria no nosso próprio ventilador, quando fazemos
esse joguinho machista e ignorante e embarcamos em mais esse preconceito
de achar que feminista é sinônimo de mulher feia e mal amada.
Desculpe-me, leitora, a agressividade, mas mais agressiva é a negação
da nossa própria história, a degradação de
uma luta milenar de tantas e tantas mulheres que sofreram para que você,
hoje, tivesse alguma chance de ser feliz. Para que você pudesse
ser cidadã, votar, estudar e até aprender a ler e a escrever.
Elas lutaram, foram humilhadas e até morreram para que você
pudesse se separar de um marido que não ama mais sem ser chamada
de vagabunda. Para que você pudesse escolher quando quer ter filhos.
Para que você pudesse ter prazer sexual. Para que você pudesse
se realizar intelectual e financeiramente.
Posso escrever mais cinquenta páginas só com os nomes delas.
De Mary Wollstonecraft, na Inglaterra dos anos 1760 à americana
Lucy Stone , passando pela brasileira Bertha Lutz, por Simone de Beavouir,
Betty Fridan, Amelinha Telles e tantas outras heroínas, muitas
anônimas, da luta pelos direitos da mulher.
E se essas mulheres conquistaram tanta coisa, ainda hoje sofremos os efeitos
da nossa milenar discriminação. Ainda ganhamos menos que
os homens, nos mesmo cargos. Ainda somos xingadas no trânsito, na
TV, na publicidade. Ainda somos desvalorizadas na sociedade, consideradas
menos capazes do que os homens no mundo científico e acadêmico.
Ainda há porque lutar. Ainda há que matar dentro de nós
mesmas os fantasmas da nossa discriminação que fazem com
que nos desvalorizemos, que acreditemos que não somos mesmo capazes
de tomar o nosso destino em nossas mãos e fazem com que ainda esperemos
que algum homem vá resolver para nós os nossos problemas
emocionais ou materiais.
Por isso, porque não confiamos em nós mesmas, é que
tendemos a desprezar as nossas antepassadas que lutaram por nós
e aquelas que, até hoje, estão nessa mesma luta.
Somos apenas ignorantes e desleais quando fazemos isso.
Eu sou feminista, sim. Desde criança, pois cresci ouvindo a minha
mãe dizer que não tem nada que ter direitos diferentes para
homens e mulheres. E a minha mãe nasceu em 1912!! Sou feminista,
sim, porque sei que sou tão capaz quanto qualquer ser humano de
ser responsável por meu próprio destino. Sou feminista,
sim, porque quero ver o fim das discriminações sociais contra
qualquer ser humano, seja ele de que cor for, de que sexo for, se que
religião for... E se você, minha amiga, também se
acha competente, capaz de realizar o que se propõe, se você
acredita que todo ser humano nasce igual e morre igual, se você
é contra a violência e a discriminação, então
você também é feminista. Como o foram essas santas
mulheres, nossas mães, que lutaram por nós. O resto é
preconceito, jogo machista e ignorância.
Isabel Vasconcellos
é escritora e apresentadora de TV.
Na Band, é colunista do Otávio Mesquita, com o quadro Só
Sexo.
Na allTV produz e apresenta o programa Só Saúde.
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