Muito
Loucas !
As mulheres, por séculos e séculos,
foram consideradas seres frágeis, emocionais, inferiores ao homem,
incapazes de raciocínio lógico. Até a década
de 1960, inclusive, diante das dificuldades cotidianas, a reação
de muitas era simplesmente desmaiar. Não é difícil
perceber que nós próprias, por muito tempo, acabamos por
acreditar nessa fragilidade, nessa fraqueza, nessa inferioridade que
o mundo machista nos impôs.
Interessante é notar que, ao longo da história da humanidade,
encontramos milhares de exemplos de mulheres que desmentem esse estereótipo
de fraqueza. E a mulher de hoje, então! Trabalha, estuda, muitas
são os chefes de suas famílias, matam um leão por
dia e ainda encontram tempo para fazer as unhas!
O professor Dr. Joel Rennó Jr. é phd em psiquiatria e
coordenador do Projeto de Atenção À Saúde
da Mulher do Instituto de Psiquiatria da USP. Ele chama atenção
para dados interessantes. Dentre os transtornos de ansiedade, a predominância
é de pacientes do sexo feminino. Veja os dados do Dr. Joel:
- ansiedade generalizada: 3,5% nos homens; 7% nas mulheres
- síndrome do pânico: 2,5% nos homens; 5% nas mulheres
- estresse pós-traumático: 5% nos homens, 10,4% nas mulheres
- fobia social: 11% nos homens, 15% nas mulheres
- fobias (medos diversos: de avião, de barata, etc.): 6% nos
homens, 15% nas mulheres.
E a depressão (doença) também é prevalente
nos sexo feminino, de 60 a 40.
Dr. Joel explica que muito dessa diferença se deve à dança
dos hormônios no corpo feminino. Na menstruação.
Na menopausa. A dança hormonal feminina, o preço que pagamos
pela capacidade de gerar filhos, tem direta influência sobre o
cérebro, sobre os níveis de serotonina e dopamina, sobre
a química cerebral.
Mas não é só esta a causa. A causa dos transtornos
de humor é multifatorial. Mulheres infelizes no casamento, diz
uma recente pesquisa da Universidade de Yale, ficam mais doentes do
que as felizes.
Depende das condições de vida, das circunstâncias,
de como se lida com os sentimentos e com as emoções.
Nós mulheres estamos vivendo, na minha maneira de ver, o mais
difícil momento histórico de nossas vidas. O verdadeiro
feminismo, as mulheres seriamente organizadas politicamente, conquistaram
para nós, em passado recente, todos os direitos que temos hoje
na sociedade e que, por séculos, não tivemos. Desde o
simples e básico direito de votar até o direito ao prazer
e à independência econômica.
Mas estamos sentadas entre duas cadeiras. Por um lado, fomos para o
mundo produtivo, o mundo dos homens e, para nos adaptarmos a esse mundo,
nos tornamos um pouco como eles, adotamos o valores profissionais deles,
nos tornamos agressivas e competitivas e lutamos com as armas deles
(que são armas testoterônicas, de conquista, de vale-tudo)
para conseguir o mesmo sucesso profissional que eles. Por outro lado,
relutamos em abrir mão de nosso papel de rainhas do lar, das
únicas responsáveis pelas coisas (mil coisas!) do universo
doméstico. Resultado: dupla jornada de trabalho, falta de tempo,
ansiedade, angústia. Não é de se admirar que sejamos
as maiores vítimas dos transtornos do humor.
Está na hora de nós, mulheres, começarmos a pensar
em levar para o mundo masculino, e testoterônico, um grande balde
de estrogênio e progesterona. Está na hora de questionarmos
a forma masculina de levar o mundo produtivo, profissional e político.
Está na hora de nos impormos, como femininas, à ordem
masculina do mundo.
A natureza e a cultura femininas ficaram, por séculos e séculos,
fora do mundo produtivo, profissional e político. É hora
de nos re-transformarmos em mulheres no trabalho e na política.
Este é o caminho de um neo-feminismo. De uma nova mulher. Mais
centrada. Mais equilibrada. Mais feliz. Um caminho que pode, sim, contribuir
para relações sociais mais felizes e para uma maior paz
no mundo.
Podemos fazer isso. Com a nossa força. Com a nossa coragem. Com
a nossa visão feminina, intuitiva, construtiva, da vida. Afinal,
nós sempre fomos muito loucas!