Satisfação passageira!

Cristina Helena Sarraf
jornalcem@yahoo.com


Pergunta: Quando sentimos obstáculos fatais em oposição aos nossos
projetos, seria pela influência de algum Espírito?
Resposta: Algumas vezes, são os Espíritos. Outras, na maioria delas, é que escolhestes mal a elaboração e execução do projeto. A posição e o caráter influem muito. Se insistis num caminho que não é o vosso, não é devido aos Espíritos, é que sois vosso próprio gênio do mau.
O Livro dos Espíritos – Allan Kardec – questão 534


Se você tem fome e vai correndo para um chocolate ou doce, logo sente aquele prazer da satisfação. Mas essa passa depressa e seu corpo pede mais. É assim que podem nascer os chocólatras. Mas se resistir à tentação da satisfação fácil do açúcar, e comer uma fruta, por mais tempo seu corpo estará satisfeito e nutrido. E mais: vício de fruta só prejudica o bolso.
Da mesma maneira, quando você opta por algo coerente com a sua natureza, seja o que for, lhe dará muita satisfação e prazer, preenchendo, longamente, sua alma de contentamento.
Lembra daquelas coisas que ao fazê-las esquecemos da vida e nem nos preocupamos com canseira tempo ou gasto? Essas vem da alma e são expressão de nossas características pessoais.
Por outro lado, costumamos ter uma série de atividades, posturas, opiniões, práticas e afazeres, que quando nos trazem algum bem estar, mas isso logo passa, ficando apenas uma sensação de desconforto. Por maior que seja o investimento pessoal, no fundo parece que arrastamos pedras e a aparente satisfação logo dá lugar a um vazio e àquele “gosto de guarda-chuva” na boca...
Essas reações revelam escolhas que não fazem parte da alma, não nos caracterizam, e sem elas viveríamos melhor conosco mesmos, embora se pense o contrário, e se veja vantagens...
Por que agimos assim?
Desenvolvemos, nossa experiência reencarnatória atual, numa sociedade exigente de desempenhos e aparências. Muitas vezes, para acompanhar a maioria ou porque nos sentimos em defasagem, procuramos nos espelhar em outras pessoas, que nos parecem mais lúcidas e espertas. A família também tem sua cota nessas decisões, por causa das expectativas desenvolvidas sobre os filhos e parentes, ansiando que reproduzam os valores, condutas e desempenho que consideram importantes e necessários.
Em função desses dois fatores, boa parte das pessoas vive com posturas, compromissos e atividades insatisfatórios; aqueles que não são expressão da alma, porque escolhidos pelos condicionamentos, pelo status ou pelos outros. Quando em grande número, esse tipo de escolhas afogam aquelas que realmente lhes fariam bem.
A razão disso é não estarmos acostumados a viver com a consciência de que somos indivíduos, individualizados e exclusivos, seja nas formas de pensar, entender e sentir, seja nas manifestações e gostos. Essa situação de desconhecimento de nós mesmos, faz com que adotemos e aceitemos condutas e afazeres que muito pouco ou nada tenham a ver conosco, mas são próprios de outras pessoas. Para elas estão de conformidade com a sua natureza. Para nós, não!
Tal dicotomia, quando não é percebida, provoca um forçar a sermos ou agirmos conforme modelos e padrões, considerados ideais. Como não conseguimos a contento, por não ser essa a nossa característica pessoal, acabamos nos descaracterizando muito, no afã de alcançar a qualidade e a ação desejadas.
É o professor que detesta estudar; o médium que não gostaria de estar preso a essa responsabilidade na Casa Espírita; é a mãe que não tem paciência com crianças; é o médico que não sabe lidar com pessoas; é a secretária que sonha em ser doceira; é o pai severo só porque acha que assim é o certo; é o jovem que ama uma cantora, mas afoga esse sentimento, porque sua família tem preconceito em relação à vida dos artistas ...
O Espiritismo explica bem esses acontecimentos, quando nos ensina que somos Espíritos em processo evolutivo e que essa maturação se faz gradativa, por desenvolvimento e experiências. Portanto, como ninguém consegue ser tudo o que existe, vamos aos poucos obtendo isso e aquilo. E é nos aspectos onde há algum desenvolvimento, que temos capacidades e discernimento para agir melhor, sendo eficientes. Já naqueles aspectos pouco desenvolvidos, erramos, não avaliamos bem os resultados de nossas escolhas e nos confundimos na hora de optar, decidindo, muitas vezes, pelo que trará dificuldades.
Sendo dotados de livre arbítrio, escolhemos e depois vem as conseqüências naturais. Ao nos depararmos com estas, em primeira instância pomos a culpa na vida, em Deus e nos outros. Depois, mais amadurecidos, começamos a vislumbrar a própria responsabilidade. E por fim, “cai a ficha” e entendemos, de vez, que tudo que nos sucede vem como conseqüência natural do que escolhemos pensar e fazer.
Então, quando há uma opção pelas coisas que não dizem respeito ao nosso verdadeiro sentir e ser, é porque nesse aspecto da vida, ainda estamos muito verdes e as decisões alheias nos parecem ideais. Por isso, o pouco de satisfação que venha acaba logo, na medida em que não há um substrato para se fixar e permanecer. De forma oposta, naquilo que temos mais experiências, ou seja, esse substrato de conhecimentos e características, tudo nos dá prazer e contentamento; há um progresso notório e uma sensação de realização, que é daquelas que permanecem, alimentando a alma e trazendo saúde ao corpo.
Para descobrir o que você tem feito consigo mesmo, basta por um pouco mais de atenção nas reações íntimas, face ao que pensa e escolhe fazer. Aos poucos irá aprendendo a sentir o que realmente sente e a perceber se está seguindo suas necessidades e aspirações ou apenas procurando ser como os outros são ou lhe dizem que deva ser.

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