Cristina Helena Sarraf
jornalcem@yahoo.com
“Tenha uma estimativa saudável de suas habilidades. Confie
nelas e as use, desenvolvendo-as, e ouvirá em um curto espaço
de tempo: Ele é muito bom nisso. É um gênio.”
Cada vez é mais claro que nossa maior dificuldade na vida é
lidar conosco mesmos. Parece, quando não aprofundamos a análise,
que o mais difícil é nos relacionarmos com os outros;
que as relações pessoais é que são o mais
complexo do existir. Mas não pensamos mais assim, quando desenvolvemos
olhos de ver.
Ver o quê?
Ver que não nos conhecemos o suficiente para distinguir o que
sentimos e quais reações temos diante dos acontecimentos,
e porque são essas e como nos tornamos assim.
Obviamente, estamos falando do autoconhecimento. No entanto, não
é preciso esperar desenvolvê-lo para aprender a sentir
o que sentimos. Aos poucos vamos nos conhecendo, quando queremos empreender
essa busca. E a todo instante podemos descobrir o que sentimos, pondo
atenção no que sentimos. Mas, a questão é
que costumamos ficar muito “na cabeça”, e isso nubla
o sentir.
Ficar na cabeça é um termo empregado para representar
o hábito de racionalizarmos tudo, e nos mantermos nos condicionamentos
mentais que, ilusória e aparentemente, dão segurança
e auto-domínio. Sair da cabeça e ficar no sentir, é
uma forma alegórica de dizer que a cabeça foi feita para
pensar e o corpo para sentir. Não sentimos com a cabeça
e não raciocinamos com o corpo. Ambos são necessários,
é claro, e sua soma nos dá o bom senso, tão necessário
nos dias atuais.
Bem... à luz do Espiritismo, o sentir e o pensar são do
Espírito, mas se refletem, limitada e delimitadamente, no corpo
físico.
Pela cultura social, estamos condicionados a considerar que o intelecto
vale mais que o corpo. Temos aprendido isso no decorrer dos séculos
de dogmatismo religioso. E nem estamos falando de razão e sim
de intelecto. Por mais que muitos já tenham abandonado esse preconceito,
ele ainda persiste, ostensivamente ou de forma subliminar, na nossa
sociedade. O resultado é essa forma habitual de ficar na cabeça,
totalmente esquecidos de que estamos sentindo algo. Aliás procura-se
disfarçar, alijar esse sentir, como sendo uma reação
boba; “ deve ser a feijoada que comi” ou então, concluímos
que não tem nada a ver com a situação que estamos
vivendo.
O hábito que permanece é o de nos voltarmos para a aquisição
de costumes, conceitos e posicionamentos, bem aceitos pela sociedade.
Estes, pela repetição, no esforço para conquistá-los,
tornam-se mecanizados, condicionados e passam a funcionar sem raciocínio,
embora dêem a falsa idéia de que estamos fazendo uso eficiente
da razão e das funções mentais. Na verdade, são
como chips de computador: acionados executam determinada função.
Isso nos dá a ilusão de estarmos direcionando nossa vida,
mas não estamos; nos mantemos repetindo comportamentos, rotineiramente,
sem análise.
Outro condicionamento social, que favorece esse descuido com o que sentimos,
é a suposição de que quem tem muitos conhecimentos
é um ser superior. Isso seria certo, se estivéssemos medindo
o quanto se sabe. Mas é equivocado, quando essa bagagem nos faz
pensar, enganosamente, que saber é ser e agir. Crendo em ilusões,
deixamos por conta dos conhecimentos, muita coisa que não se
resolve por eles e sim, pelo que podemos perceber e sentir. Dessa sensibilidade
aplicada, virá a condição de usar o que se sabe,
com eficiência e oportunidade.
Os aspectos descritos são muito comuns, e caracterizam uma conduta
não observada e nem reciclada.
Um dos grandes obstáculos à felicidade, que essa forma
de ser produz, é nos mantermos no hábito da desatenção
ás características das pessoas com quem convivemos, sobretudo
daquelas que nos tocam o coração. Não sendo estas,
logo reconhecemos quando alguém não age bem, quando não
nos atende ou quando é mais ousado. Mas “ter olhos de ver”,
e ver qual é a natureza de cada uma dessas pessoas, já
é bastante incomum.
Como não conseguimos nos equipar, da noite para o dia, com recursos
que demandam vontade, exercitamento e reavaliações, o
que podemos fazer é começar a sermos mais atentos, sem
julgamentos, a tudo que vemos. Atentar e sentir. Perguntar-se: como
estou me sentindo diante disso? A resposta não pode ter idéias,
conceitos e elaborações mentais, porque é um sentir,
que na maioria das vezes, não tem palavras e nem pode ser traduzido
por elas. A observação vai mostrando se nos sentimos bem,
mal ou de forma diferente da costumeira, mas não mal.
Esse exercitamento despertará nossa atenção para
o que sentimos e aos poucos vamos distinguindo e nos educando a diferenciar
o que é sentir do que é pensar. Até porque são,
realmente, capacitações muito distintas.
Só a título de precaução, deve ser dito
que não estamos nos referindo a sentimentos, e sim a um sentir-percepção
do Espírito, distinto das funções mentais, que
representa nossa mais íntima e legítima manifestação.
Sinto, logo existo! Essa é a frase correta. E que Descartes nos
desculpe, mas nisso ele se enganou, porque primeiro sentimos e depois
pensamos; fato que pode ser medido através das reações
das partes do cérebro, que comandam essas duas funções.
Voltando a essência do tema, os momentos inesperados são
muito importantes para nos mostrar o que costumeiramente não
vemos, não por deficiência visual, mas porque “ficando
na cabeça”, vemos o que está nela e não o
real. Nesses instantes que ninguém imagina que acontecerão,
os fatos que chegam de forma inusitada, sempre nos mostram facetas,
nossas e dos outros, que se bem observadas, revelarão a pessoa.
E não há oportunidade de maior glória, do ponto
de vista do autoconhecimento e do reconhecimento do outro, que essa,
na qual a pessoa é tirada, pela surpresa, de seus esquemas de
auto-proteção e das máscaras que acobertam sua
verdadeira face.
Mas, atenção!
Viu? Viu!
Se viu, se sentiu, não finja para você mesmo que não
viu e que não sentiu, pelo medo, pela insegurança ou pela
preguiça de ter que enfrentar a realidade. Se cair na tentação
de inventar argumentos e razões aparentes, acabará se
acostumando a enganar a si mesmo, usando mal seus recursos de perceber,
entender, raciocinar, sentir, ver e saber. Esse tipo de auto-sabotagem
cria costumes mecanizados e depois de algum tempo, nos enganam, nos
traem e nos deixam de lado, e nem sabemos porque. Mas a lei das consequências
naturais “sabe”, e muito bem, porque esse tipo de coisas
nos acontece.
Então, se você viu, viu!
Se sentiu, sentiu!
Apesar de qualquer frustração ou dor, nunca esqueça
o que viu reconheceu, porque é a partir disso que você
saberá se posicionar de forma correta diante da pessoa. Não
se trata, no geral, de termos que nos afastar ou mudar o relacionamento,
embora às vezes, seja essa a única solução.
Mas, o que foi mostrado deve nos fazer ver no que não poderemos
mais confiar. Mesmo porque, não há como exigir que alguém
nos dê o que não tem. Assim como, não há
como querer que alguém se modifique da noite para o dia. Portanto,
o que foi visto, o que foi sentido de verdade, é o melhor dos
parâmetros para nos relacionarmos com essa pessoa, da melhor maneira
possível, não lhe dando funções que não
pode exercer e nem esperando que faça o que não sabe fazer.
Quem sucumbir ao hábito e arranjar uma desculpa que anule sua
observação, quer se enganar inventando uma interpretação
e acaba mantendo-se na ilusão; é possível até
se convencer de que o que viu foi só fruto do inesperado e não
a revelação de quem a pessoa é. Nesse caso, só
o sofrimento, que virá, será capaz de recolocá-lo
no devido lugar, aquele do qual saiu quando viu e fingiu que não
viu, desprezando o que percebe e sente.
Evitar esse sofrimento é sinal do uso da inteligência,
em busca da própria felicidade, para a qual fomos criados. Portanto,
o convite é que estejamos atentos, mas jamais prevenidos. Prevenir-se
é se condicionar a esperar algo e isso nos cega á variada
gama da realidade.
Ao ver, segure o que viu. Sinta o que viu! Depois saberá como
agir.
Você mesmo vai se agradecer!