O QUE FALTA PARA O BRASIL? (III)
O problema é que ainda guardamos
o ranço cultural da colônia: os
pistolões, padrinhos e tráfico de influência continuam
aí, só que com
um nome mais bonito, embora mais antigo ainda: nepotismo.
Quem o pratica não quer competência, inteligência
ou sabedoria a
serviço do povo: quer lealdade ou, melhor, cumplicidade, com
interesse
pessoal.
Isso é discriminação! Mas também estamos
evoluindo nesse sentido.
Afinal, a democracia implica estado de direito e todos são iguais
perante a lei, como afirma a Constituição. E para promover
essa
igualdade melhoraram a educação pública? Deram
as mesmas condições
para todos? Não, criaram cotas: discriminação institucionalizada
em
vez de oportunidades iguais, com base em mérito.
O dinheiro público continua sendo malversado. Alguns dos que
dizem que
representam o povo e defendem o país, mandam muito do que sorvem
da
nação para paraísos fiscais: países detergentes.
Outros cobram
comissões para liberar verbas destinadas a programas sociais,
inclusive de merenda escolar. Gentes, principalmente crianças,
morrem
em função disso! Isso poderia ser considerado genocídio
doloso, crime
hediondo, mas não é! Pelo contrário, a maioria
de seus autores tem
imunidade, ou seja, licença para matar!
Mas isso é só culpa deles? Não! Dizem que cada
povo tem o governo que
merece? Prova disso é que os mesmos políticos ou seus
herdeiros estão
sendo eleitos e reeleitos apesar da multiplicação de escândalos.
E
mesmo quando não são eleitos continuam na vida pública.
As denúncias
não os incomodam ou afetam, pois as leis que os julgam protegem
mais
do que punem. Por outro lado, outras leis, consideradas modelos pelo
mundo, ou não pegam, ou criam dificuldades para venderem facilidades,
ou confundem rigor com morosidade, atravancando o desenvolvimento do
país.
Mesmo assim, bastaram duas décadas para o Brasil sair da condição
de
mendigo financeiro, para uma posição de relativo respeito
internacional. E tudo isso apesar de todas as nefastas tradições
das
elites que governam o país: sejam de direita ou esquerda:
Ainda cultuamos mitos e inventores de suas próprias lendas; ainda
cultivamos o gosto ibérico por líderes carismáticos
e mártires; ainda
insistimos em pedir favores e dar jeitinhos, em vez de exigir e
respeitar direitos, de cumprir e fazer cumprir deveres.
É certo que, apesar das crises: financeira, moral e ética,
o Brasil
está indo de vento em popa... Mas a velocidade de barcos a vela
não é
mais referência. A todo vapor também não é
ecologicamente correto.
Entretanto, mesmo que estivéssemos voando em velocidade Mack,
nada
valerá se não houver planejamento estratégico sério,
de médio e longo
prazo, além de uma profunda consciência de nação,
moral e eticamente
falando.
Então, o que falta para o Brasil?
Bem: investir maciçamente em educação, saneamento,
pesquisa científica
e tecnológica, desenvolvimento sustentado, soberania territorial,
enfim, em tudo aquilo que todo mundo já está cansado de
saber. Mas,
não basta criar essas condições ideais e formar
profissionais de
ponta: é fundamental que todo esse potencial criativo, inteligência,
sabedoria e capacidade empreendedora do povo brasileiro não estejam
meramente a serviço da mediocridade esperta.
Assim, ter mais políticos honestos e bem intencionados já
seria um
excelente começo!
Adilson Luiz Gonçalves