O uso e o abuso
Cristina Sarraf
Delimitar a passagem do uso para o abuso não é simples,
pelo fato de nossa mente ser condicionada pelos conceitos e costumes,
que variam e dependem da mentalidade pessoal.
Segundo o Espiritismo, somos individualidades responsáveis pelos
próprios caminhos e descaminhos. Nossos atos nascem da maneira
como pensamos e conceituamos a Vida, o que resulta em consequências
naturais e coerentes. Quem já sabe que a Vida funciona assim,
tem a possibilidade de averiguar o antes e o depois e conectar as coisas.
Mesmo que essa conecção, às vezes, não seja
fácil de ser feita, a persistência vai trazendo lucidez.
O obstáculo maior para esse procedimento auto-analítico
está em protegermos e defendermos infantilmente, nossos pontos
de vista, buscando razões e desculpas para eles. Esse típico
comportamento imaturo estabelece o hábito de não examinarmos
os fatos segundo o que pensamos e fizemos antes de ocorrerem.
Deve existir, sim, num outro aspecto, a defesa dos nossos pensamentos,
por serem nossos e para não sermos joguetes e nem invadidos pelos
que vem dos outros, principalmente os que querem nos dominar. Mas, quando
esse procedimento é usado à luz do orgulho, fecha a mente
ao discernimento e impede o auto-conhecimento.
Um outro engano é supor que esse exame do que nos motivou a agir
seja sinônimo de pensamentos necessariamente equivocados ou maus.
Até porque, não há só pensamentos maus ou
bons, há uma infinidade deles e nas mais variadas gradações,
que poderão estar sendo favoráveis ou não para
quem os cultiva.
O Espiritismo também ensina que nós, os Espíritos,
evoluímos num processo do menos para o mais, da inconsciência
para a consciência, ampliando o auto-reconhecimento, o entendimento
de como a Vida funciona, os conhecimentos, o discernimento, enfim, tudo
o que nos caracteriza como indivíduos. Portanto, nada mais natural
e coerente que tenhamos formas de pensar e ser que precisam de ajustes,
reciclagens e revisão, não se constituindo isso em nada
de vergonhoso e indesejável. Ao contrário, é um
cuidado e uma higienização mental que só nos ajuda
a viver melhor, desde que não se constitua em mania de perfeição
e auto-condenação. Ou seja, desde que não haja
o abuso...
Como se vê, faz parte de nossa fase evolutiva a confusão
entre o uso e o abuso, que muitas vezes é visto como o certo
e o justo, denotando o quanto estamos longe, como humanidade, do equilíbrio
e da harmonia face ás leis da Vida.
Abusos de poder, de beber, de comer, de falar, de laser, de pensar;
intrometer-se e direcionar a vida alheia; julgar e condenar sem conhecer;
querer determinar sua vontade sobre o que é do outro; supor-se
mais autorizado e melhor dotado para decidir sobre o certo e o errado;
ser o “dono” do Espiritismo; saber o que Deus quer; condenar
e denegrir costumes e práticas de outros povos e religiões;
incomodar o lar e os vizinhos falando e usando aparelhos sonoros em
tom alto; desrespeitar o pensamento, a vontade e as decisões
do outro, impondo-se e muitas vezes com agressividade; cultivar doenças,
desgraças e momentos infelizes; viver com o “desconfiômetro”
desligado e passar da conta no que faz; ser invasivo; supor que os mais
chegados sejam obrigados a suportar e/ou apoiar tudo o que se faça;
manter muitos compromissos, impedindo o necessário tempo de refazimento
e reflexão; ocupar espaços e objetos dos outros desrespeitosamente;
ser o “dono” da verdade; postergar tudo...
O fato é que os abusos acabam maltratando o próximo e
o seu autor, pelas consequências advindas. E o mais incrível
é que o abusado sente-se incompreendido e injustiçado
quando não o aprovam e criticam sua conduta.
O que acontece é que empregando a mente na repetição
de um modo de pensar e nos comportamentos resultantes dele, ela se acostuma,
se condiciona e automatiza-se nisso; á partir daí fica
parecendo que o excesso é o normal e a pessoa não vê,
não percebe, que o equilíbrio foi ultrapassado e que,
óbvio, algo desagradável começa acontecer.