POR QUE POESIA?
Às vezes a gente pensa que não tem
mais nada, mesmo acreditando ter tudo!
A riqueza e a pobreza parecem iguais quando olhamos
o caminho
percorrido até atingi-las. Quase sempre houve a renúncia
do belo, o
abandono da alma e perda do real sentido da vida. Conquistas e
deserções absolutas fazem parte do paradoxo de um mundo
cada vez mais
regido por valores distorcidos, que desprezam os sentidos e
sentimentos em nome de metas e aparências. Progressivamente, a
humanidade vai perdendo sua aura de divindade e sua capacidade de
abstrair. O ser humano é encarado como uma mera e substituível
peça de
um mecanismo de resultados físicos, frios e distantes. Pior:
aceita
essa condição e ainda busca superar esse plano traçado
a sua revelia!
Escravidão consentida! Vida sem poesia!
Os atos mais simples deixaram se ser naturais e
gratuitos... Há sempre
uma segunda intenção, vil.
A inteligência e a racionalidade são
exaltadas como principais
virtudes humanas. As pessoas são avaliadas, graduadas, selecionadas,
consumidas ou descartadas por critérios científicos e
herméticos, num
processo que lembra ora eugenia ora uma linha de montagem cibernética.
Mas não é a capacidade de sonhar e de ver além
das imagens que nos
torna especiais? Não é a possibilidade de escolher caminhos
que nos
faz diferentes? Não é essa diversidade a razão
poética do fascínio da
humanidade?
Estamos trocando tudo isso por um adestramento
coletivo tendo como
contraponto, único, a rejeição explosiva e inócua.
A intuição cede
espaço ao condicionamento ou ao caos existencial. O ser humano
germina, mas não frutifica!
Onde estão as metáforas? Onde estão
a comunhão de almas e a sublimação
da vida? Onde está a beleza explícita ou implícita
dos gestos, das
palavras e dos pensamentos?
Parece que estamos sendo conduzidos, inconscientemente,
à negação da
humanidade, em tempos difíceis ou não. Mas mesmo atingida
essa
sarjeta, virtual ou real, sempre será possível resgatar
nossa
natureza, bela e divina, pois ao revirar esse lixo existencial nada
impede que encontremos uma rosa vermelha! Quem sabe nos lembremos de
um jardim... Talvez de um amor sincero... Ou seus espinhos, numa
distração do destino, façam aflorar nosso sangue
e lembrem que a vida
flui em nós com a métrica do coração, e
que temos uma mente, milagre
supremo da Criação, capaz de duvidar, imaginar e entender
o universo,
em prosa e verso! Assim, talvez tomemos essa rosa, a coloquemos na
lapela e então, despertos e iluminados - como um cego que recobra
o
sentido da visão -, passemos a enxergar, com um sorriso na alma,
a
beleza, a esperança e a poesia que a cegueira de espírito
ocultava.
Saibam que, mesmo na indigência, do ser ou
do ter, não há rima pobre!
Todos os sonhos e pensamentos vertidos em palavras são livres,
preciosos e indispensáveis à vida! Todos carregam emoções
e verdades
capazes de, no momento certo e preciso, alegrar ou consolar, derrubar
muros ou construir ideais! Com tal poder transformador, mesmo um poema
gratuito não tem preço! Como pode haver pobreza para quem
distribui
tal riqueza?
Todos somos livres, ricos e poetas! Essa é
a nossa condição fundamental!
Por que, então, poesia em tempos de indigência?
Porque até as preces
de aflitos, esperançosos e agradecidos são feitas em verso!
Porque as
epopéias que falam da superação de adversidades
são descritas em
verso! Porque mesmo o rigor de um dogma e a arrogância dos poderosos
não resiste e cede passagem à ousadia de uma licença
poética! Porque a
razão nos guia no solo firme, mas é a poesia que nos faz
voar e ver
além da escuridão ou da linha do horizonte!
Em suma, porque a poesia precisa existir em qualquer
tempo!
Adilson Luiz Gonçalves