Semelhante a palavras cruzadas

Cristina Sarraf

Os objetos, máquinas e apetrechos humanos, no geral tem sua forma e funcionamento inspirados em plantas, animais, órgãos e suas funções. Isso é muito interessante de se notar. Por exemplo, o computador imita algumas funções cerebrais, as colheres, xícaras e copos imitam a concha feita pela mão para levar algo á boca, as máquinas fotográficas e telescópios imitam o olho, os aviões copiam a aerodinâmica e as asas das aves, e vai por aí. Observando com atenção podemos ver e perceber coisas muito interessantes.

Sendo uma aficionada pelas palavras cruzadas – temporariamente superadas pelo sudoku, mas conseguiram uma revanche- um dia desses acabei descobrindo algo que vale a pena contar.
Uma revista de cruzadas ficou esquecida no meio de um caderno e ao buscar nele uns apontamentos, ei-la! Que ótimo, pensei, porque havia muitas páginas a serem resolvidas e outras tantas, sem completar. Fui logo atraída por essas, porque é interessante retornar a uma palavra cruzada deixada de lado por não se saber o significado pedido e depois notar como nos atrapalhamos e não vimos o que estava na frente do nariz, como se diz. Esse é um exercício muito bom, porque nos dá a medida de como estávamos naquele momento anterior e como estamos hoje. Gosto muito quando acontece, porque mostra muito de mim. E por isso, se não sei os sinônimos, não colo a resposta. Deixo e outro dia volto...
O mais interessante é quando tudo trava, não se consegue saber ou colocar nenhuma palavra. Seja nas cruzadas ou no sudoku, isso é sinal certo de que algo foi feito errado ou de que nossa mente está desfocada desse objetivo, nublada. Nesse caso a melhor estratégia é deixar e ir fazer outra coisa. Aliviar tensões... Afinal esse jogos devem servir para nos distrair de outras coisas, porque focamos a mente neles e não para nos irritar.

No caso de haver sido posta uma palavra errada, quando se retorna, a intuição diz que num tal local há erro. Basta atenção e ele é encontrado. Muitas vezes o equívoco é devido à interpretação que demos. E aí está um destacado valor das cruzadas: o autor imagina algo e propõe, e nós podemos acertar ou supor outra coisa. Num exemplo: aparece a palavra fraco, para ter seu significado colocado em cinco espaços. Se fecharmos a mente em débil, vamos errando até percebermos que o significado buscado era tênue.

A correção -tal como a descoberta de uma palavra que não se sabe- começa pelas laterais, ou seja, verticais ou horizontais ligadas á palavras em questão. E vamos formando as combinações. Nesse processo o erro aparece, porque para compor as outras, aquela que colocamos mostra-se inadequada. Ao retirá-la, as demais se encaixam e ajudam na descoberta da que é certa. E então, uma leva a outra sucessivamente.
O ponto é este: ao descobrir o engano tudo se ajeita de tal forma, que num instante todas as palavras foram postas e o jogo acaba.
No dia a que me referi, ocorreu o que foi descrito acima e vi que é semelhante a nossa vida.

Vamos vivendo, pensando que entendemos o que se nos apresenta e dando os significados que supomos corretos. E assim vamos indo, mas quando algo enguiça, fica obstruído e não soluciona, insistir, afligir-se, dramatizar sobre as injustiças dos atos alheios só piora as coisas.
A estratégia, no caso, é parar tudo e buscar a paz interior. Com ela estamos “num novo mundo”, aptos a ver, ouvir, perceber, examinar, sentir, sob nova ótica.

A solução desse embaraço da nossa vida, em geral não se faz de forma rápida e direta como desejamos. Muitas vezes é preciso tempo para enxergarmos a interpretação equivocada que estamos vivendo.
Mas, se realmente queremos acertar e nos pomos ao nosso lado, cientes do quanto ainda ignoramos até sobre nós mesmos, vamos vendo as desarrumações e equívocos que estivemos fazendo e não havíamos percebido. Estes, englobam e desembocam naquele ponto crucial, o problema que precisa ser resolvido. Ir vendo e mudando o que se possa, nessa lateralidade, é como nas cruzadas, ir arrumando as palavras que acabarão ajudando a encontrar a que estava errada. A vida começa a tomar outras cores, outra dinâmica e outros rumos, que nos equiparão para desvendar a dificuldade maior. E quando encontramos o caminho, vamos pondo tudo no lugar e tendo a coragem de fazer o que é preciso, com auto-respeito e paciência, mas vendo que as situações se encaixarem “como num passe de mágica”.

Na verdade, não é que a Vida conspira a nosso favor, é que ela é a nosso favor, porque feita das Leis Divinas. Mas quando nos pomos no meio do caminho, cheios de arrogância e orgulho, não vemos o obstáculo que criamos; e por causa dele as coisas emperram e cada vez complicam mais. Semelhante ao que ocorre nas palavras cruzadas, quando interpretamos equivocadamente o que foi proposto.

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E-mail  - monica@monicadelimaazevedo.psc.br

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