PONTOS DE
FUGA
Já perdi a conta das
vezes que ouvi pessoas dizerem que gostariam de voltar no tempo e recomeçar
suas vidas, com a lucidez e a sabedoria da maturidade.
Bem, é verdade que nem todos chegam lúcidos e sábios
à maturidade. Alguns, aliás, insistem em não amadurecer,
preferindo permanecerem “jovens”, não no sentido
espiritual, mas cultivando a irresponsabilidade por seus atos, sempre
esperando que alguém os “entenda” e tolere. Mas,
além daqueles que gostariam de voltar ao passado para corrigir
erros, optar por alternativas que não notaram ou descartaram,
também há os que querem que seu futuro seja previsto.
Esses, de certa forma, abrem mão do livre-arbítrio para
seguir as orientações de videntes, pagas a preço
de ouro, mas sem nenhum certificado de garantia. Assim, o ser humano
perde muito tempo pensando no passado ou tentando prever o futuro, mas
esquece de viver o presente.
“Como será o amanhã?... O que irá me acontecer?”,
diz uma canção; “Esses moços, pobres moços:
ah, se soubessem o que eu sei...”; afirma outra; “Devia
ter amado mais...; complicado menos...; ter visto o sol se pôr...”,
diz mais uma.
Pois é... Se a gente voltasse no tempo talvez não lançasse
algumas pedras, não dissesse certas palavras, nem perdesse algumas
oportunidades. Mas, pensar assim só serve para distrair tristezas,
esquecer frustrações, mágoas ou arrependimentos.
Pode justificar, oportunamente, o presente, mas não necessariamente
contribui para mudá-lo, nem ao futuro. Assim, nem sempre a gente
fixa o olhar na linha do horizonte, qualquer que seja a direção,
em busca de novas perspectivas. Às vezes o que se quer são
apenas pontos de fuga.
É preciso ter muito cuidado, pois isso pode virar um perigoso
freio, uma neurose, uma mania! E daí para uma patologia...
Aí, pensei “com os meus botões”: “E
eu? O que eu mudaria em minha vida, se pudesse voltar no tempo?”.
Provavelmente eu evitaria algumas brigas, mas, certamente, “compraria”
outras tantas ou mais. Talvez eu expressasse mais minhas opiniões,
em vez de deixar que os outros interpretassem meus pensamentos. Pode
ser que eu me esforçasse para ser menos tímido, ousar
mais. É possível que eu tentasse outros caminhos profissionais
ou dentro das mesmas profissões. Quem sabe, me declararia a todas
as mulheres que amei, em vez de “curtir” paixões
platônicas, etéreas ou deletérias. Mas, sempre que
eu acordo e vejo o sono lindo e sereno da mulher que eu amo, tão
perto de meu coração, do meu carinho e do meu desejo,
entendo que essa tola regressão temporal poderia, sim, mudar
o futuro, e talvez eu jamais a encontrasse... Com isso, não haveria
meu filho!
Sendo assim, não! Eu não quero voltar ao passado! Dele
eu só quero as boas lembranças e as lições
para seguir em frente.
Tristezas, amarguras, erros e frustrações fazem parte
dele, sim; mas, hoje, eu os entendo como pedras do caminho que trilhei
para chegar àqueles que eu mais amo, que são meu melhor
presente.
É por eles e com eles, lado a lado, que penso e acredito no futuro!
Pois é... Às vezes a gente lamenta demais o passado, fantasia
demais o futuro, olha demais para o espelho, tudo para tentar focar
o que mal se pode ver. No entanto, esquece de notar quem está
presente, ao nosso lado, bem próximo...
Adilson Luiz Gonçalves
Mestre em Educação