Adolescente
Muitas mudanças em pouco tempo
Estas inúmeras mudanças
ocorrem num período relativamente curto e, segundo a psicóloga
Mônica de Lima Azevedo, “geram uma estranheza, que provoca
ansiedade. Esta é uma fase nova”. Neste período,
o adolescente toma conhecimento de si mesmo, de suas dificuldades e
potencialidades. “O púbere se questiona sobre as modificações
que acontecem no seu corpo. Cada parte do corpo que se modifica chama
a sua atenção de tal forma que ele não consegue
visualizar outra coisa”.
Ela menciona Içami Tiba, autor do livro Puberdade e Adolescência
– Desenvolvimento Biopsicossocial, que exemplifica: “se
as mãos crescerem e se tornarem zonas de tensão para o
adolescente, ele viverá em função das mãos
e não saberá o que fazer com elas. A sua salvação
será fazer algo que desvie a atenção, ao mesmo
tempo que não chame a atenção dos outros”.
Ou seja, ele vai buscar atitudes socialmente esteriotipadas como fumar
ou beber, por exemplo, para se defender da exposição a
situações novas.
Durante a adolescência é que o jovem adquire capacidade
de fazer relações, ou seja, de fantasiar e imaginar situações
abstratas que, segundo Mônica, são o uso voluntário
do seu pensamento. “Ele vê o livro, mas não está
lendo, ou fica parado, olhando para o nada. Quando alguém o chama,
leva um susto”. Sua posição no mundo sofreu profundas
modificações e ao mesmo tempo em que amplia as percepções
do ambiente que o cerca, este mesmo ambiente se relaciona de forma diferente
com ele, por causa de seu crescimento físico e das outras modificações,
como o aparecimento das características sexuais secundárias.
Antidependência
De acordo com a psicóloga, a proteção
é benéfica para a criança, “desde que não
seja exagerada, senão ela não aprenderá a se defender
sozinha”. Já com o adolescente a coisa muda. “Ele
sente-se autônomo. A proteção pode gerar revolta,
principalmente se for tratado como criança”. Uma criança
não atende a uma solicitação dos pais quando não
tem vontade, mas um adolescente não responde de acordo para mostrar
que só faz as coisas quando quiser e que os pais não mandam
mais nele.
Esta fase é denominada, por Içami Tiba, como antidependência.
Partindo do princípio que a autonomia é importante para
o ser humano, assume proporções diferentes para o adolescente,
pois ele a considera como própria preservação de
sua individualidade. Tiba diz que as relações de autoridade
– aceitação e autoritarismo – submissão,
sofrem grandes modificações na adolescência.
A antidependência, então, é uma negação
que significa uma não submissão ao autoritarismo. “
A negação não representa a vontade de não
fazer, mas significa que os pais não mandam mais nele”,
diz Tiba. A antidependência não existe por si só,
porém. Ela só se manifesta para ser oposição
a um comentário, um pedido ou uma ordem. A reação
é global, e tudo pode ser entendido como um estímulo.
“Se numa situação de antidependência os pais,
como resposta, tornam-se mais rígidos, mais o adolescente vai
se opor” adverte Mônica Azevedo, para quem é importante
não confundir uma atitude de antidependência com falta
de educação ou de respeito aos mais velhos, como freqüentemente
acontece.
Para o adolescente, esta é uma verdadeira competição
de opiniões e de força. Ele geralmente procura fazer o
oposto de que os pais pedem. “É que no fundo ele que ainda
é dependente”, analisa a psicóloga, “e entende
que se acatar a sugestão ou ordem dos pais não é
ele, é uma criança. O adolescente é um ser que
está descobrindo sua vontade e tendo a consciência que
existe como indivíduo. A antidependência, então,
é necessária para atingir a independência como uma
etapa do desenvolvimento. É uma força de busca e de conquista”.
Força de Pressão
Ao mesmo tempo em que vive uma moratória,
ou seja, em compasso de espera para os compromissos adultos, o adolescente
vive uma pressão muito grande, pois é constantemente cobrado
quanto a “vir a ser alguma coisa”, comenta Mônica.
“Esta é uma pressão da própria sociedade,
que gera ainda mais conflitos”. Para os meninos, a situação
é ainda pior, pois existe uma cobrança muito grande do
ponto de vista sexual.
“A crise é maior ou menor
dependendo do quão grande é esta pressão”,
afirma a psicóloga. Ela também esclarece que o final da
adolescência não pode ser definido, como o início,
“pois o indivíduo pode estar organicamente maduro mas não
ter atingido a maturidade psicossocial , que é um novo tipo de
intercâmbio entre ele, o mundo à sua volta e a família”.
Ela reconhece, por outro lado, que “ser
pai de adolescente não é uma tarefa fácil. As modificações
dos filhos nesta evolução da dependência para a
independência, exige uma modificação nos pais. Quando
estes se reestruturam, a evolução é natural para
os jovens”.
É nesta fase também que
cai o mito dos pais, que passam a ser vistos como pessoas passíveis
de erro e não são mais os seres perfeitos da infância.
O adolescente, por este motivo, costuma eleger uma pessoa como mito,
“um protótipo do que ele pretende ser quando tornar-se
adulto”.
A turma também exerce papel importante
na vida do adolescente, pois ela é formada por pessoas que estão
vivendo o mesmo momento existencial. “O outro é um espelho,
é no outro que ele reflete sua própria imagem”,
observa Mônica. “É na turma que ele faz a troca de
experiências, que não faz em casa. E no namoro, a menina
e o menino buscam uma afirmação como mulher e como homem.
É uma forma de eles sentirem que não são mais crianças,
uma afirmação, uma busca de intimidade”.
entrevista concedida à
Nadine Salvagni Filippe - AT Especial -23/10/1987