A moderna psicossomática, uma alternativa à noção de stress.


Atualmente, não se pode mais negar que o adoecimento físico, das mais variadas doenças, desde simples infecções até o câncer, pode ter tido uma forte participação de fatores emocionais. Sempre foi muito evidente que uma situação especialmente difícil de vida, como passar por uma séria crise financeira, precede freqüentemente, de pouco tempo, o aparecimento de uma doença grave, por exemplo, um infarto. Pesquisas sistemáticas confirmam o que sempre esteve à mostra. Por exemplo, citado por Jean Stora, no livro francês O stress: “Está hoje estabelecido que a taxa de mortalidade dos viúvos no primeiro ano de luto é de 40% mais elevada do que aquela de homens casados com a mesma idade (amostra de 4500 pessoas)”. Um outro exemplo simples e que elimina qualquer dúvida com relação à unicidade corpo-mente é citado pelo cancerologista francês Claude Jasmim, no livro francês Somatização - psicanálise e ciências da vida. Trata-se de uma pesquisa americana que abrange toda a comunidade chinesa da Califórnia: na semana que precede uma festa chinesa importante, a Colheita da Lua, a mortalidade na comunidade, que é de milhões, diminui 35%, reequilibrando-se na semana seguinte. Portanto a expectativa em geral boa da festa dá um alento de vida aos chineses. Mostra-se assim que a saúde e a doença seguem a vida.

A noção hoje tão difundida de stress procura abarcar estas questões, apesar de não restringir-se unicamente ao adoecer físico, pois se diz que o stress pode também levar a outras coisas, por exemplo, ao alcoolismo. Pior do que esta indeterminação, é o significado vago e impreciso do termo stress: uma espécie de média nebulosa entre ansiedade, depressão, tensão, fadiga, excesso de preocupação, e alguns mais.

Um avanço decisivo, que apresenta dados precisos sobre a participação psicológica no adoecer físico, foi realizado pela chamada psicossomática da Escola de Paris, fundada por Pierre Marty, e que precedeu de décadas a voga do stress.

O dado empírico fundamental desta psicossomática é, esquematicamente, de que uma situação difícil do tipo abalo psicológico pontual, ou então dificuldade que perdura, pode absorver nossa mente em graus variados, desde ficarmos completamente tomados por ela, sem pensar em outra coisa, até termos apenas alguns flashs de pensamento ora e outra, e, na medida em que ficamos mais tomados, vamos circunscrevendo e retendo a situação difícil no território de nossa mente, ao passo que o pensamento breve e superficial não a circunscreve nem retém, e então, neste caso, a mente é extravasada, o soma é atingido, a doença física aparece. Portanto, o transtorno mobiliza a atividade de nossa mente e esta atividade é também nossa defesa para que nosso soma não seja atingido, se a atividade mental é superficial, falha como defesa.

Esta variável de atividade da mente, Marty denominou-a mentalização. Os indivíduos podem diferir largamente neste ponto. Posso constatar as possibilidades de atividade mental de uma pessoa a qualquer momento, independentemente de estar vivendo uma situação difícil, ou traumatismo, como se diz no jargão técnico. Vamos ver um critério: examino uma pessoa e constato que a maneira como vê a vida, seus parâmetros, hoje aos 50 anos de idade, é a mesma maneira que tinha aos 15 anos; apesar das mudanças nos costumes sociais e apesar do tempo de sua vida que transcorreu, a pessoa pensa igual, quer dizer, há uma inércia mental, ou então, seu o pensamento é voltado quase apenas para questões práticas do dia-a-dia. Ora, quando esta pessoa passar por um traumatismo, vai continuar pensando como sempre fez e não tem como, desta maneira, assimilar mentalmente a dificuldade, e então somatiza gravemente.

È importante sabermos que a dificuldade de mentalização facilita a somatização na medida em que os traumatismos são mal assimilados, mas que, por melhor que seja a mentalização de uma pessoa, tem limites diante da grandeza do traumatismo, principalmente quando transtornos importantes são simultâneos ou se sucedem muito próximos, então não há quem resista, e todos podemos somatizar gravemente.

Em decorrência de traumatismos psicológicos, somatizamos de doenças das quais temos predisposição genética ou adquirida, bem como devido a agentes do meio, com relação aos quais devem ser consideradas nossas defesas imunológicas que, elas, são sensíveis aos traumatismos psicológicos.
Uma outra forma de má-mentalização, esta a mais rudimentar, caracteriza o que Marty denominou neurose de comportamento. Aqui, muito pouco se pensa antes de agir: é a impulsividade. Num momento posterior, a pessoa se recompõe, mas na hora, tomada pela emoção, seu comportamento é incontrolável. Observa-se que na neurose de comportamento, fora dos momentos, muito freqüentes, de impulsividade, a mente tem pouca autonomia própria, ela é muito rente às ações, só existe de mãos dadas com a ação, se assim podemos dizer. Impedida por alguma razão de agir, a pessoa é tomada de mal-estar ou vai dormir.

A vida onírica, que ocorre na parte do sono, chamada paradoxal, onde nosso tônus muscular atinge seu maior relaxamento nas 24 horas, e então nos incapacita para a ação, representa um momento máximo de autonomia mental, associada a propriedades alucinatórias, em função do divórcio com a realidade imediata característico do estado do sono. O sonho é um indicador privilegiado da mentalização. Situações insólitas e complexas que eventualmente apresenta são indicativas da autonomia mental e, portanto, de boa-mentalização. Numa mentalização mais rudimentar, a pessoa raramente lembra-se dos sonhos (se bem que a falta de lembrança de sonhos pode ter como causa também repressões, que não devem ser confundidas com a má-mentalização) e, quando ela se lembra, são sonhos de conteúdo muito próximos do dia-a-dia, sem praticamente nada de bizarro.

Os delírios e alucinações da psicose têm a mesma condição do sonho, um divórcio com a realidade. Ora, mas o conteúdo complexo dos delírios psicóticos revela uma boa mentalização de base, apesar do mecanismo patológico de afastamento da realidade (inversamente, a má-mentalização exclui a loucura). Conclui-se daí que numa psicose crônica a saúde física é boa, o que pode se verificar junto aos serviços que atendem estes doentes, se bem que hoje a doença física grave apareça aí mais do que antigamente, devido a medicação, que antes não existia. A medicação anti-psicótica tem o efeito colateral de reduzir a mentalização. O que é preferível, a loucura ou a doença física? Penso que é preferível uma dosagem fina da medicação. O individuo com transtorno compulsivo obsessivo, ou neurose obsessiva, também apresenta muito boa saúde, por razões semelhantes. Ele é o inverso da neurose de comportamento: a dúvida sobre as mínimas ações, e conseqüentemente o adiamento destas, faz com que a vida do compulsivo obsessivo transcorra numa eterna ponderação mental dos prós e contras.

Certamente não precisamos ter essas doenças mentais para termos saúde física, elas apenas atestam a existência de fundo de uma boa mentalização, que na grande maioria das vezes existe sem elas.
Qual a causa da má-mentalização? A anamnése dos pacientes e a observação direta mostram sem mistério que são os maus-cuidados com a criança até cerca dos 3 anos de idade, neste período onde os alicerces da vida de pensamento são expressamente montados, o que a rapidez da aquisição da linguagem, relativamente complexa a partir dos 2 anos, atesta. Os maus-cuidados são: o pouco contato afetivo com o bebê, ou as atitudes contraditórias onde num momento se enche o bebê de beijos para, logo em seguida, deixá-lo num canto por horas sem quase lhe dirigir o olhar, também a forte irregularidade das múltiplas pessoas que cuidam do bebe, ou a instabilidade da guarda, e finalmente, que frequentemente coroa estas má relações, os castigos físicos.

A psicoterapia na psicossomática tem o objetivo imediato de auxiliar a assimilação da dificuldade de vida por que passou ou continua passando o paciente e que está na origem do aparecimento da doença, auxiliar particularmente dosando gradativamente, para o paciente, o contacto com o traumatismo, manter por um tempo mais longo o paciente pensando no traumatismo, estender diante dele um leque de variantes possíveis a partir do traumatismo, o que por si só ele não faria, encorajá-lo, enfim, em comportamentos de alivio que não sejam perigosos, como por exemplo, o uso de drogas. Isto tudo de imediato, a longo prazo, mas desde o inicio, procuramos melhorar sua mentalização preventivamente.

Até onde vai o conhecimento da moderna psicossomática, algumas doenças crônicas por crises, de menor gravidade, e muito comuns, tem mecanismos diferentes. Pode ser por falhas localizadas de mentalização, que no geral é boa. Por exemplo, a asma, onde a falha de mentalização está circunscrita à dificuldade do asmático em conceituar a pessoa estranha como estranha: o comportamento habitual descontraído do asmático diante da pessoa desconhecida é como se ela fosse de muito tempo familiar. A crise asmática ocorre quando o estranho mostra-se recalcitrante a sua redução ao familiar. A crise pode ocorrer também quando uma pessoa familiar passa a ter um comportamento destoante do que lhe era habitual e deixa assim de ser a mesma pessoa para o asmático. Em outras doenças crônicas como a enxaqueca, a cefaléia tensional, lombalgia, gastrite, entre algumas mais, a mente tem acesso a certas funções fisiológicas afetando-lhes o funcionamento. Como exemplo, a infertilidade feminina: mesmo em vários casos em que limitações anatômicas justificam a infertilidade, a mulher, que por anos tentou tratamento sem sucesso, engravidou pouco tempo depois de ter adotado uma criança, de maneira que podemos concluir que a adoção permitiu elaborar e minimizar o forte medo inconsciente de ter um filho, que agia sobre o funcionamento fisiológico.

Pierre Marty veio da psicanálise, mas na medida de suas descobertas em psicossomática, cujo campo refere-se ao que há de mais essencial no homem, a unidade mente-corpo, aprimorou alguns princípios da psicanálise clássica e alterou outros. Isto, com trocas férteis e contínuas com a psicanálise atual das últimas 3 décadas, menos especulativa, menos baseada na autoridade pessoal, mais empírica, que procura combinar a investigação no consultório com investigações epidemiológicas de populações amplas.


Wilson de Campos Vieira

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