Anorexia Infantil - Prof. Dr. Wilson de Campos Vieira
A anorexia infantil não tem as mesmas causas da
anorexia da adolescência, esta de um exacerbado ideal de magreza.
A anorexia infantil é de dois tipos. Um raro, onde a criança
apresenta nítidos apavoramentos diante da comida, e conseqüente
recusa, juntamente com outras graves perturbações, como
insônias severas, comportamentos bizarros, isolamento. E um outro
tipo de anorexia, desta vez bastante comum, na qual a vida social da
criança é normal. Deste, vou tratar mais demoradamente.
Esta anorexia pode começar nos
primeiros meses de vida e alastrar-se por anos, até mesmo a idade
adulta. Os pais tentam todo tipo de artifício para fazer a criança
comer: “um pouquinho para o papai”, “um pouquinho
para o ursinho”, cantarolam, contam histórias, outros mostram-se
zangados, coagem fisicamente e, na criança um pouco mais velha,
aplicam castigos do gênero não sair da mesa enquanto não
comer tudo. O fracasso desses métodos é de regra.
Qual a causa dessa anorexia? O apetite
da criança pequena é mais sensível do que o do
adulto. Ela pode momentaneamente perder o apetite por várias
razões. Por estar doente, especialmente nas? viroses?, ou porque
começou a alimentação sólida, ou por causa
do crescimento dentário. Seus pais ou equivalentes suportam mal
ela recusar comer, a idéia de que vai acabar morrendo é
quase constante. Imagine você leitor adulto se não está
com apetite? acontece com muito de nós quando estamos deprimidos
? e é forçado a comer uma feijoada. É, digamos,
torturante. Na criança, o motivo inicial da perda do apetite
deixa de existir, mas a alimentação fica associada à
experiência torturante, criando assim uma nova falta de apetite.
Diante da mesma situação, aqueles que cuidam da criança
repetem e inovam os métodos. E a partir daí forma-se um
círculo vicioso. Nas palavras de Leon Kreisler: “O incidente
menor tem conseqüências desmesuradas. Não se reconheceu
que a recusa inicial era justificada e quiseram forçar a criança
a terminar a refeição. A recusa renovou-se e cada participante
instalou-se finalmente na sua posição; a anorexia tornou-se
um hábito”
Este tipo de anorexia também é
chamado de anorexia de oposição. Na literatura, fala-se
de uma “guerra” entre a mãe e a criança, “greve”
por parte desta. De fato, a birra, o “vamos ver quem sai ganhando”
vai se cristalizando na criança e aparentemente se torna a motivação,
mas não podemos esquecer o fundo traumático da experiência
torturante de comer forçado. Faz pouco estive numa festa que
era uma comilança, uma criança anoréxica de 8 anos
de idade, que conheço, entrou num estado de agitação
ansiosa vendo todos aquela quantidade de pratos expostos como se tivesse
que comer este tipo de comida em grande quantidade.
Na medida em que cresce, a criança
anoréxica tende a desenvolver um traço de personalidade,
que perdura pela vida afora, pelo qual uma opinião dada por um
próximo é sentida como uma ordem: “Vamos ao cinema?”
“Não, você não manda em mim”, responderia
o anoréxico.
A criança anoréxica de oposição é
normalmente muito ágil. Seu desenvolvimento motor está
à frente das demais crianças. Segundo Michel Fain, isto
se deu porque ela quis escapar da coerção da proximidade
maior dos primeiros cuidados, notadamente da alimentação
no seio ou mamadeira. De fato, essas crianças são um tanto
arredias a serem pegas no colo.
Uma outra característica dessas
crianças é de que falta nelas o medo diante do estranho,
típico do desenvolvimento quando a criança chega próximo
dos 8 meses. Neste momento, num desenvolvimento típico, a criança
diferenciou seu núcleo familiar, do qual depende, do resto das
pessoas e teme que a pessoa desconhecida vá tirá-la dos
íntimos. Para entendermos essa diferença, vamos fazer
algumas considerações. Comer junto une as pessoas, sela
uma união. Veja as confraternizações, a festa de
Natal (que recompõe os laços familiares), os almoços
entre homens de negócios, que os fazem melhor fluir. Segundo
Brazelton: “Conforme ele [o bebê] aprende a ficar sentado
e a se alimentar sozinho e compartilha suas primeiras palavras com você
[mãe], as refeições feitas em família podem
se tornar um momento agradável de proximidade para substituir
o acalanto íntimo possível com o aleitamento no peito”.
Portanto, a intimidade familiar parece derivar, entre outros, da intimidade
em comer juntos que, por sua vez, deriva da intimidade do aleitamento.
Como esta derivação é problemática no anoréxico,
ele quer distanciar-se da intimidade, e então a figura do estranho
não se constitui como pólo de oposição a
um refugo familiar.
Não raro vermos uma anorexia infantil
transformar-se em obesidade por volta dos 7, 8 anos de idade. A oposição
cede ao mesmo tempo em que o traço de caráter de negativismo
e rebeldia a que nos referimos. Mas um remanescente da recusa alimentar
permanece na forte seletividade do que a criança gosta de comer.
A criança acaba dobrando-se a vontade dos pais. De acordo com
minha experiência, a partir desse momento, a criança tem
uma noção mais realista da morte e assimila o medo da
mãe ou dos pais de que fosse morrer por alimentar-se pouco. É
importante considerarmos isto, porque a obesidade que se forma é
mantida pelo medo da morte.
A anorexia de oposição cede
com certa facilidade, se os pais mudam os métodos: deixar de
empregar artifícios ou a coerção física
ou castigos. O médico pediatra, psiquiatra infantil ou psicólogo
podem orientá-los. Numa criança maior, o essencial é
os pais ficarem indiferentes à sua alimentação,
não se incomodarem com a recusa em comer, nem mesmo falarem mais
de comida, deixar a criança à vontade. O fator mais difícil
está no médico e no psicólogo tranqüilizarem
os pais de que o filho não vai ficar doente, nem morrer. Numa
criança menor, segundo Kreisler, deve-se “excluir todo
alimento deliberadamente recusado; permanecer inferior em quantidade
aquilo que é aceito habitualmente” de forma que “os
papéis são invertidos, e a criança colocada na
posição de quem pede”.
Querendo seguir essas orientações,
ou outras semelhantes, os pais devem ser acompanhados pelo médico
e pelo psicólogo, para a orientação de cada momento.
Que este pequeno artigo sirva para os pais saberem que o problema resolve-se
com certa facilidade.
*Dr. Wilson de Campos Vieira é
psicanalista, formado em filosofia e psicologia, mestre pela Sorbonne
(Paris) e doutor pela UNICAMP, foi professor da USP, trouxe a psicossomática
da Escola de Paris para o Brasil, criou e coordenou o curso de psicossomática
do Instituto Sedes Sapientiae, vários artigos publicados em livros
e revistas científicas, dá curso de especialização
em psicologia no CADE - Centro de Atividades, Desenvolvimento e Estudos
(telefone: 12 3921-8680), em São José dos Campos.
E-mail: wilsondcv@uol.com.br
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