|
|
Ansiedade, ataque de pânico, síndrome ou transtorno
do pânico e agorafobia: muitos nomes para coisas parecidas?1
Regina Christina Wielenska2
Quem já não
ouviu dizer que “tal pessoa tem síndrome do pânico”?
Algumas pessoas acreditam ser este um tipo de ansiedade exclusivo da vida
moderna, mas isto não é verdade. Pesquisadores identificaram
registros históricos sobre ataques de pânico feitos há
séculos, em diferentes culturas.
Antes de mais nada, vamos entender o que é ansiedade: ao longo
da evolução da espécie humana, em nosso cérebro
desenvolveram-se estruturas que nos qualificam para sentir e reagir aos
eventos ambientais, provenientes do ambiente interno (nossos pensamentos,
estados do corpo, etc.) e do meio externo (tudo que ocorre ao nosso redor).
Por meio deste aparato biológico da espécie, aprendemos
formas de sobreviver num ambiente complexo, passível de mudanças
variadas, nem sempre favoráveis a todos os indivíduos.
Para o homem, é fundamental esta sensibilidade ao que assegura
nossa sobrevivência: buscamos abrigo, alimento, proteção
e a companhia uns dos outros e também lutamos para manter afastado
qualquer perigo, tudo o que pareça nos ameaçar ou seja desagradável.
Ser capaz de sentir medo, aflição e emoções
similares é absolutamente natural, necessário. Imagine,
por exemplo, como seria se o homem pré-histórico não
sentisse medo de feras. A espécie talvez não tivesse sobrevivido.
O medo é um padrão (parcialmente aprendido) de reação
emocional ao ambiente, e isso protegeu o homem das cavernas. Os indivíduos
que não reagiam aos sinais evidentes de perigo, os imprudentes
e ousados em demasia, poderiam morrer durante a caçada, pisoteados
pelo bisão ou atacados por um felino. Deste modo, foram selecionados
na evolução da espécie humana comportamentos relacionados
à detecção e reação a estímulos
nocivos, que potencialmente ameaçassem nossa integridade.
Portanto, sentir medo ou outras emoções deve ser entendido
como um fenômeno aceitável, valioso e normal para todas as
pessoas. Quando o medo se torna um problema? Imagine que um caçador
pré-histórico estivesse a ponto de morrer de fome porque
não mais se sentia seguro para sair da caverna, mesmo que os outros
membros de sua tribo saíssem para caçar e conseguissem alimento
nestas incursões pelo território comum a homens e feras.
Basta pensar nos riscos inerentes de uma caçada, que seu corpo
se transforma, como se um leão já estivesse prestes a abocanhá-lo.
O coração dispara, tem suor frio, as pernas tremem. Uma
descarga de adrenalina ocorre na ausência do perigo real: o corpo
fala mais alto e o indivíduo busca se afastar da situação
em que sentiu aquele medo terrível. Fugir e esquivar-se tornam-se
comportamentos mais freqüentes, com resultados adversos. O nosso
homem das cavernas, ao agir de modo excessivamente temeroso arrisca sua
sobrevivência: adoece e sofre com a fome, fica privado dos alimentos
que só obteria por meio da caça e/ou coleta.
Neste caso, vale fazer uma analogia: o corpo de quem sofre um ataque de
pânico parece um automóvel equipado com sistema anti-furto
defeituoso: o alarme dispara na ausência de ladrão. E quem
vive bem se a cada momento precisa lidar com o alarme que disparou? A
vida se transtorna, não é?
Um ataque de pânico é uma manifestação física
de intensa ansiedade: tem início abrupto, em cerca de três
minutos atinge-se o auge do desconforto, e um episódio desse medo
intenso e incontrolável dura entre dez e trinta minutos. São
sintomas possíveis: taquicardia (aceleração dos batimentos
cardíacos), boca seca, tremor, sensação de falta
de ar ou sufocamento (a oxigenação está normal, mas
o indivíduo interpreta que está sem ar), tensão,
sensação de "perna bamba" parestesias (formigamentos,
geralmente da extremidade de membros e/ou de alguma parte da face), medo
de morrer ou de ficar louco ("acho que estou enfartando", "isto
deve ser derrame"), vontade intensa de ir ao banheiro, entre outros
sintomas.
O que causa um ataque de pânico? Há muitas causas, desde
o contato próximo com um perigo concreto, até disfunções
hormonais ou tumores. Por tal motivo, é importante que os ataques
de pânico, mesmo aqueles explicáveis por circunstâncias
delimitadas e claras, sejam investigados adequadamente. Dá-se o
nome de transtorno do pânico ao quadro clínico do o indivíduo
que apresentou um ou mais ataques de pânico num período curto
de tempo, e passou a ter sua vida prejudicada pelo "medo de ter medo".
Antigamente denominavam-se estes casos de síndrome do pânico,
visto que síndrome é um conjunto definido de sintomas e
sinais. Com o avanço dos estudos sobre as formas patológicas
de ansiedade, caracterizou-se melhor o quadro clínico e o fenômeno
passou a ser reconhecido como um subtipo dos transtornos de ansiedade.
E o que é agorafobia? Trata-se do medo intenso de vir a sentir
os sintomas do pânico e não ter como lidar com a ausência
dos sinais de segurança (pessoas a quem recorrer em busca de ajuda,
locais considerados bem ventilados ou de fácil circulação,
etc.). Assim, uma complicação freqüente do pânico
é o medo aprendido do tipo agorafobia. O indivíduo sente
desconforto intenso nos locais onde os ataques ocorreram, e progressivamente
passa a evitar ou fugir de atividades, locais, pessoas e estados corporais
(como sudorese, taquicardia e tremor). A agorafobia restringe a qualidade
de vida e até dificulta a busca de tratamento adequado para a ansiedade
patológica.
Há tratamento? Sim, e com resultados muito interessantes. Psicólogos
e psiquiatras são os profissionais que melhor podem ajudar os portadores,
oferecendo diagnóstico, apoio e tratamentos cientificamente validados.
Há outros médicos, como clínicos gerais e neurologistas,
que eventualmente podem oferecer tratamento farmacológico, mas
dá-se preferência aos profissionais de saúde mental,
especialistas em transtornos de ansiedade.
A idéia de remédios com uso controlado assusta muitos portadores.
A primeira idéia que lhes ocorre é que ficarão "viciados",
eternos dependentes da medicação de "tarja preta".
Felizmente, isso não corresponde aos fatos, porque as medicações
adequadas ao tratamento do pânico e agorafobia não trazem
imediata sensação de bem-estar. A nicotina, a cocaína
e várias outras substâncias possuem a capacidade de estimular
os centros cerebrais de prazer logo após a ingesta das mesmas.
Os medicamentos para pânico, por sua vez, não atuam de modo
imediato sobre o organismo. Há um intervalo mínimo de duas
semanas entre o início do tratamento farmacológico e os
primeiros sinais de melhora. As doses são aumentadas gradualmente,
seguindo escalas já testadas. Cada paciente reage melhor a determinado
remédio e por isso apenas um relacionamento sólido com o
médico, muito diálogo, colaboração recíproca
e observação atenta permitirão o sucesso da fármacoterapia.
Lembrem-se de que eu comentei que parte do medo é uma reação
aprendida, seja de modo consciente ou não. Assim, o portador precisa
enfrentar experiências de vida que se contraponham às reações
de medo excessivo, desproporcional aos contextos. Nesse momento a terapia
torna-se ferramenta muito importante: pode-se ampliar o conhecimento daquilo
que nos afeta e construir um história devida mais satisfatória
e que resulte na sintonia entre nosso pensar, sentir e agir a cada etapa
da vida. Planeja-se um enfrentamento gradual das dificuldades, oferecendo
ao corpo a chance de viver contextos de relativa segurança, nos
quais não mais teremos reações exageradas de medo.
Os familiares, amigos, professores e colegas de trabalho podem auxiliar
demais um portador, estimulando a busca de tratamento adequado, evitando
críticas destrutivas e disseminando informações precisas
sobre o que é um transtorno de ansiedade e formas de superação.
Para saber mais a respeito, consulte o sítio www.aporta.org.br,
mantido por uma associação que congrega dedicados portadores
de transtornos de ansiedade e seus familiares, além de um comitê
de colaboradores científicos.
1. Este artigo somente poderá ser
reproduzido, de modo parcial ou completo, sob expressa autorização
de sua autora, a quem são reservados os direitos autorais. As informações
aqui contidas não substituem o contato direto entre um profissional
de saúde e seu paciente, e devem ser consideradas diretrizes gerais,
não necessariamente aplicáveis a todos os casos.
2. Psicóloga e supervisora na abordagem analítico- comportamental
, formada pela PUCSP, Mestre e Doutora em Psicologia Experimental pelo
IPUSP.
Voltar
|