Casamento, sim
Até que a vida nos separe
O fato de as pessoas e as expectativas
mudarem, não significa que isso seja para pior. Muita gente afirma,
quando um relacionamento acaba, que o sentimento não era verdadeiro.
Mônica contesta isso : “Ele pode ter se transformado em
alguma coisa, com a qual não dá para conviver. Na verdade,
o eterno deveria ser medido em termos da vida do sentimento e não
da vida das pessoas”. Muitos casais queixam-se que não
vivem, depois de algum tempo, a mesma paixão do começo,
como se isso fosse uma evidência de que a relação
acabou. “Isso não é verdade”, avalia a psicóloga.
“ Esse pensamento só mostra uma romantização
e uma idealização da relação. A paixão
pode tomar um outro curso, que não é necessariamente pior,
pois pode evoluir para sentimentos muitos positivos e fortes como amizade,
carinho, amor”. A paixão pode transformar-se numa relativa
indiferença, em casais que vão levando a vida, “cada
um com suas tarefas tradicionais e uma troca afetiva muito pequena.
Também pode se deteriorar e virar uma relação de
ódio e destruição. Existem várias opções”.
Contabilizar erros
Quando uma relação chega
ao fim – casamento ou namoro – as pessoas passam a contabilizar
os erros. “Começam a se perguntar quem foi o errado, o
culpado e o casal entra numa postura de acusação recíproca”
, diz Mônica. Existem vários aspectos, num relacionamento,
que podem provocar o seu término: a falta de comunicação,
valores muito diferentes, projetos de vida que antes podiam ser conjugados
– ou seja, um projeto não incomodava o outro – ou
mesmo elementos da personalidade do casal que são críticos
na determinação do curso dessa relação.
A psicóloga explica melhor: “Se um dos dois, em função
de sua história de vida, daquilo que vivenciou, tiver traços
de personalidade ou a mania de se sentir sempre acusado, prejudicado,
perseguido, então ele vai tender, a despeito do que a outra pessoa
faça, a se enxergar acusado, traído, subestimado, enganado.
Esses são os fantasmas das pessoas, porque na verdade, eles se
colocam assim diante da vida e não apenas daquela relação
a dois”. Esse traço de personalidade se manifesta em relação
à pessoa que está ao seu lado. “O mesmo acontece
com aquelas pessoas que não sabem dizer não, ou têm
dificuldade em estabelecer limites e cedem mais do que podem”,
complementa a psicóloga que dá um aviso aos navegantes:
percam as esperanças de que ele ou ela vão mudar depois
do casamento”.
O que acontece, em função da própria evolução
da vida da pessoa, é que ela vai melhorar algumas características
que incomodam o outro e "piorar" outras, diz Mônica.
“O que pode acontecer é que esse traço que incomoda
pode evoluir. Isso porque o convívio diário, o compartilhar
constante, vão fazer com que um conheça mais o outro,
tanto as coisas boas como esses traços que incomodam”.
Só muda quem quer
As pessoas mudam, mas somente quando isso
é uma necessidade interna, não porque os outros querem.
E, com o casamento, um sempre espera que o outro melhore. “As
pessoas só mudam porque sentem que naquele momento é uma
necessidade delas e não por causa do outro” explica Mônica.
“Concessões têm que ser feitas de ambas as partes:
se só um cede, é claro que a corda vai arrebentar”.
E para não se aguentar até o fim da vida um casamento
que não está satisfatório, Mônica considera
importante as pessoas estarem preparadas para a vida. “ Antigamente
o casamento era visto pelas mulheres como um emprego.
“As mulheres foram criadas
para casar e apesar de estudarem, trabalharem, ainda existe a idéia
de que o homem é o cabeça da casa.Aliás,
esta é a visão que ainda encontramos, pois a mulher, no
geral, não era preparada para enfrentar a vida.
Salientando uma dificuldade de trabalhar,
de acreditar que é capaz de sobreviver produzindo, cultivando
coisas”. É aí que entra o aspecto da dependência
econômica, “que muita vezes mascara a dependência
emocional”, observa a psicóloga.Mas
estamos numa época de transição e talvez nas próximas
gerações, as mulheres estejam aptas a enfrentarem o casamento
com uma maturidade maior.
Contar consigo
Há também um outro aspecto:
a pressão da sociedade, para quem as pessoas mais estruturadas
são as casadas. “Mas isso também está mudando”,
reconhece a psicóloga. “Existem pessoas que são
solteiras por opção. E por que isso tem que ser pior?
Na verdade, grande parte das pessoas têm dificuldade em conviver
com a solidão, o contar consigo”.
Ela afirma ser difícil encontrar uma mulher que, ao casar, não
busque a figura do pai, “que não queira um colo, que consiga
desenvolver uma relação de igual para igual, em que ambos
tenham maturidade. Mas o inverso também é verdadeiro:
é difícil um homem que também não queira
uma mãe”. Para Mônica, a segurança masculina
muitas vezes requer uma mulher submissa, inferior do ponto de vista
intelectual e de produção, pois assim ele considera sua
masculinidade garantida. A independência da mulher que o homem
aceita é a de uma profissão feminina, em que ganhe menos,
pois ainda existe a idéia de competição. “Muitos
casamentos são desfeitos porque a mulher ganha mais do que o
homem, pois isso abala a estrutura deles”, constata a psicóloga.
“Nós vemos até alguns homens que têm uma fachada
liberal, mas que em situações conflitantes mostram sua
face opressora, para de certa maneira garantir sua segurança”.
Já que é preciso haver concessão, ela não
deve pesar. “Quando o relacionamento vai bem, tem harmonia, esse
fator concessão não é um problema”, avisa
Mônica. “Mas quando o fato de fazer concessões se
torna acusatório, esse é o primeiro sinal de alerta de
que alguma coisa não vai bem. Se a troca em termos afetivos vai
bem, as concessões são feitas tranquilamente, com prazer,
deixam de ter o cunho de concessão. Essa é a base : a
troca, o respeito à individualidade um do outro”.
Crescimento pessoal
Num casamento, conviver com a individualidade
do outro é um desafio para o nosso crescimento pessoal. A individualidade
do outro traz problemas, angústia, pois de certa forma é
um outro mundo e provoca insegurança. Mas também pode
ser um fator para o crescimento pessoal. “Também é
através do outro que podemos reformular algumas coisas que vão
bem conosco”, explica Mônica. “Se a individualidade
do outro traz obstáculos intransponíveis, que despersonalizem,
anulem, destroem e fazem a pessoa infeliz, o crescimento se torna muito
difícil e conviver também”.
A questão é simples: ou a casal supera esses problemas
e cresce com eles, ou deixa que eles os sufoquem, anulem e alienem.
“Muita gente se conforma e prefere viver oprimida até por
uma imagem que tem de casamento, em que um é superior e o outro
é inferior. Quando se entra na competição, na rivalidade,
fica mais difícil “, diz a psicóloga. “Conciliar
num casamento, significa ceder em coisas que não sejam prioritárias
para si, entrar num acordo, cada um cedendo um pouco e ao mesmo tempo
respeitando a individualidade do outro, numa troca afetiva boa”.
Ela considera adaptação exatamente isso: fazer concessões
sem sair do própria limite. “Esse tipo de situação
de despersonalização pode durar muitos anos e eclodir
de uma maneira muito negativa. Então é preciso sempre
checar as expectativas nos termos do casamento e do outro”. Por
outro lado, também é preciso admitir que ninguém
é perfeito, pois a idealização sempre atrapalha:
“Não existe fórmula” , diz Mônica. “Temos
de ter sensibilidade para ver o outro e a partir daí perceber
quais são os nossos limites e quais são os do outro”.
“Quando um casamento não vai bem, os aspectos do outro
que causavam problemas tornam-se insuportáveis, mesmo que seja
a maneira de comer ou apenas um cacoete. É como se englobassem
tudo o que está errado", completa ela. “Se alguém
sentir, quando tudo terminar, que não há mais jeito, apesar
de todo o sofrimento que a separação causa, é sempre
possível cada um retomar a vida e, quem sabe, partir para outro
relacionamento. Já disseram que o segundo casamento é
a vitória da esperança sobre a experiência. É
bom também ficar alerta para os créditos e cobranças,
pois quando começam, é hora de rever a relação.
É sinal de alerta de que alguma coisa não vai bem”.
Entrevista ao AT Revista em 13/06/87