DAS TRIPAS CORAÇÃO

Tem dias que a gente acorda com o fígado virado, azedo, ou como se tivéssemos sido apresentados aos golpes na linha de cintura de um peso-pesado.
Tem dias que a gente passa tanto tempo trabalhando, que os rins parecem virar panquecas. E haja estômago para aturar certas situações!
Tem dias que a gente precisa fazer das tripas coração para sobreviver. E haja fôlego para suportar o corre-corre do cotidiano: é preciso ter mais de dois pulmões!
Tem dias que a gente vê coisas que não gostaria de ver...

Mas tudo isso, graças a Deus, passa, pois não são problemas orgânicos: são forças de expressão, analogias que nossa cultura consagrou como apropriadas para descrever algumas situações do dia a dia.
Basta um fim de semana agradável - sem exageros, é claro! - para recobrarmos nosso equilíbrio físico e mental; para estarmos prontos “para outra”. Afinal, estar perto de quem amamos, ou fazendo o que gostamos desopila o fígado; descontrai os rins; faz a gente respirar a plenos pulmões; tira o peso do estômago; “melhora a pele”, como costumam dizer. Nosso coração bate plenamente, cheio de energia que faz cada gota do sangue fluir prazerosamente pelo corpo, numa maravilhosa celebração da vida! E que benção maravilhosa é a vida! E que dom divino é gerar vida!

Viver é tão bom que a gente quer viver cada vez mais, para sentir a vida com todos os sentidos: provar todos os aromas e sabores, ouvir todos os sons, acariciar todos os amores e ver tudo o que puderem vislumbrar esses olhos que “um dia a terra há de comer”!
Pois é: quando deixarmos esse mundo maravilhoso a terra, o mar ou o fogo hão de comer tudo: córneas, pulmões, corações, fígados, rins, sangue, medula e tudo mais! E mesmo assim, quase todas as religiões anunciam que continuaremos a viver em plenitude depois da morte física. Então, porque dar aos vermes, aos peixes ou aos fornos crematórios aquilo que poderia dar luz a olhos, dar oportunidades semelhantes às que tivemos, enfim, salvar vidas?

No entanto, fontes da área da saúde anunciam e mostram-se justificadamente preocupadas com a sensível redução das doações de órgãos! O calvário dos que esperam por transplantes se prolonga, pois, nesse caso, não dá para fazer das tripas coração... Enquanto isso criminosos cruéis lucram com o desespero dos abastados, proliferando adoções “humanitárias” de pessoas especiais, com segundas intenções, ou surpresas como o: “Boa noite, Cinderela!”.

E tudo seria amenizado com a doação do que mão nos servirá mais, quando voltarmos ao seio de Deus.
Esse dom da cura, póstumo, deve ser como um bálsamo para a alma!
Creio ser algo para se pensar, enquanto desfrutamos do imenso dom da vida!
Enquanto isso, nada nos impede de, vez por outra, fazer uma visitinha a um banco de sangue e já praticar, em vida, um pouco desse milagre que Deus nos permite fazer.

Adilson Luiz Gonçalves
Mestre em Educação
Escritor, Engenheiro, Professor Universitário (UNISANTOS e UNISANTA) e Compositor


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