DESCONSTRUINDO O PRÓXIMO

Outro dia, um comentarista de televisão, após ler um e-mail com críticas, passou a desqualificar duramente seu autor, não pelas opiniões expressadas, mas pelos erros ortográficos existentes, muito comuns na Internet e, infelizmente, cada vez mais fora dela. Será que faria o mesmo se a mensagem estivesse repleta de falhas, mas cheia de elogios?
Expressar-se corretamente é necessário, sem dúvida, mas havia um agravante na postura do comentarista: ele tinha um veículo de comunicação a sua disposição! Por mais absurdos que fossem os argumentos ou intenções do espectador, outras soluções poderiam ter sido adotadas, em vez de ridicularizá-lo, no ar, pela falta de pontuação e letras maiúsculas.
A desqualificação de argumentos vale quando envolve questões de mérito e o embate ocorre em igualdade de condições entre as partes, permeado por suporte científico e bom-senso. Esse não é o caso quando um indivíduo usa de sua erudição ou poder para intimidar ou ridicularizar pessoas cujas opiniões sejam divergentes, sem abordar propriamente o tema; nem quando um desembesta a gritar, com ou sem torcida, impedindo que o outro se expresse.
Imaginem se a resposta de um, que se diz culto, ao questionamento de outro, de pouca instrução, fosse: “Vá aprender a expressar-se direito, antes de falar comigo!”. A arrogância e o esnobismo às vezes disfarçam deficiências intelectuais, de caráter, ou segundas intenções!
Infelizmente, essa forma de intimidação é muito comum nas relações humanas, sejam elas: familiares, religiosas, profissionais, políticas... Existem até cursos que ensinam “técnicas” para explorar os aspectos psicológicos envolvidos. Como qualquer “arma”, nas mãos erradas elas podem provocar sérios e duradouros danos.
Nem sempre isso é simples, no entanto. Dependendo do interlocutor e do ambiente, uma discussão pode engendrar uma escalada assimétrica do tipo “quem grita mais”, com final imprevisível. Qualquer que seja o tipo do “Bateu? Levou…”, ele pode “fazer sucesso” com cabos eleitorais, fãs e parentes, mas só serve para demonstrar despreparo para o diálogo daqueles que sempre querem ter a “última palavra”, mesmo quando estão errados.
É certo que as relações humanas são complexas, os humores são variáveis. Também é verdade que alguns adoram fazer picuinha e semear o caos, por iniciativa própria ou sob encomenda. Mas, entre indivíduos civilizados, a argumentação ponderada e coerente sempre deve prevalecer. É assim que a civilização evolui! Se bem que uma “explosão controlada”, na hora certa, às vezes é necessária. Além disso, é preciso ter consciência do poder que se tem à mão, para não utilizá-lo de forma indevida, injusta, tirânica.
O ideal é que aprendamos a dosar a “paciência de Jó” com a “fúria de titãs”, e o amor próprio com o respeito ao próximo.

Adilson Luiz Gonçalves
Mestre em Educação
Escritor, Engenheiro, Professor Universitário (UNISANTOS e UNISANTA) e
Compositor

 

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