Família
O ponto de partida para o mundo
1 A base de tudo
Juridicamente, a família é constituída
pelo triângulo Pai – Mãe – Filhos. Social,
moral e psicologicamente, é o grupo com o qual o indivíduo
interage na infância e no qual ocorrem as aprendizagens perante
as estimulações do meio social. A família é,
então, a base para o desenvolvimento da criança dos pontos
de vista físico, emocional, intelectual e sócio-cultural.
Os pais são os primeiros modelos afetivos que nós temos
e a forma como as relações se estruturam condicionam o
desenvolvimento de cada um. Uma família com padrões rígidos
de comportamento pode provocar, nos seus membros, poucas condições
de desenvolverem seu potencial humano. Outras, com vivência mais
dinâmica, preparam pessoas mais integradas com meio em que vivem.
Mães que fazem dos filhos um pretexto para manter o casamento
criam indivíduos com um sentimento de culpa por alguma coisa
que não fizeram.
Por mais que a sociedade mude, por mais que os valores sejam repensados,
a família ainda é a célula principal que vai se
romper para permitir a saída do indivíduo para o mundo.
Que ele pode estar preparado para enfrentar ou não.
2 Buscando o equilíbrio
A psicóloga Mônica Azevedo faz algumas
considerações: “a vida corrida de hoje fez com que
houvesse um afastamento em termos de vida familiar. Já não
se convive tanto, como há algum tempo, com outros membros da
família além dos pais e dos avós, por exemplo.
O contexto social no qual a família está inserida mudou
e esta alteração de valores não foi acompanhada
pela parte emocional das pessoas, o que gera uma desestruturação,
ou seja, uma insegurança na hora de criamos nossos filhos”.
Ela explica melhor: “a família cobra muito quanto ao papel
social da pessoa, o que ela deve ou não fazer”. Casada,
com uma filha de três meses, Mônica acredita que a geração
que está entre os 30 e os 40 anos de idade quis romper todas
as expectativas sociais, numa determinada época e acabou não
fazendo nada do que era esperado pelos mais velhos. “E isso gera
um grande sentimento de culpa”.
Para ela, houve uma virada de um extremo ao outro nas relações
familiares, na busca do equilíbrio. “Isso é válido
enquanto as pessoas estão rejeitando um modelo que não
era o ideal, mas ainda estão buscando um outro que não
existe”.
O pai e a mãe são os primeiros modelos que as crianças
têm. Dependendo da forma como se relacionaram, eles podem ser
seguidos ou totalmente negados. “A maioria das pessoas não
querem ser como os pais, mas ao mesmo tempo não conseguem encontrar
outro modelos para seguirem”. Por isso, ela acredita que está
havendo uma volta, uma retomada na preservação de valores
básicos que estavam sendo negados”.
“sair de um regime autoritário de família para uma
liberdade excessiva não dá certo”, prossegue a psicóloga
que vê hoje uma confusão entre liberdade e ausência
de limites para as crianças. “Um pai omisso gera crianças
sem referencial interno e externo. A criança precisa ser orientada,
sentir que pode confiar e contar com uma pessoa que tem mais experiência.
Este é o papel dos pais”.
3 Vínculos afetivos
Com a instituição do divórcio
e a chamada liberação da mulher, o ponto de partida de
constituição das famílias – o casamento –
mudou em sua forma e conceito. Hoje, a própria formalização
das uniões já é considerada tão importante
e os casais mostram-se mais interessados na qualidade dos vínculos
afetivos que nas garantias e direitos das mulheres e das crianças.
“A legislação relativa à família está
principalmente relacionada ao amparo à mulher e aos filhos”,
diz a advogada e membro do Conselho Municipal da Condição
Feminina, Franceli Lamas. O direito das crianças é garantido
por lei, sejam elas nascidas de uniões livres ou de casamentos
legalizados e existe até mesmo legislação específica
para o chamado concubinato.
“Hoje a mulher se dá o direito até de Ter uma união
livre ou de se separar quando sente que a situação não
está sendo satisfatória”, analisa a advogada. Ela
contou que a maioria das separações, atualmente, ocorre
antes de o casamento completar dois anos ou após os filhos estarem
criados. “Muitas mulheres que se separam depois de 15, 18 anos
de casamento, confessam que viviam mal a relação conjugal
há muito tempo, mas estavam mais preocupadas com os filhos. Já
nos casais mais jovens, os filhos geralmente não são usados
como pretexto para manter uma situação ruim”.
Nos primeiros casos os filhos crescem com inúmeros conflitos,
conforme explica Mônica Azevedo: “A criança que se
vê usada para manter o casamento dos pais recebe uma carga muito
pesada, pois tem a incumbência de resolver um conflito que não
criou. Ambientes hostis, indiferentes ou camuflados geram muitos problemas,
principalmente no último caso, pois as crianças vêm
uma coisa e ouvem outra. Recebem uma dupla mensagem”.
4 Mantendo a família
Será que a separação do casal
leva à dissolução da célula familiar? Não
necessariamente, embora seja uma coisa que aconteça em grande
número de casos. A maior preocupação com relação
aos filhos fica por conta da pensão a ser dada pelo pai, conforme
consegue perceber Franceli Lamas na grande maioria dos casos de separação
que passam por suas mãos.
“Muitas mães acham que receber a pensão resolve
os problemas e os pais consideram que o fato de darem parte de seu salário
para os filhos é suficiente”. Ela nota que há pouca
preocupação com a dissolução da família
em termos afetivos: “separação de um casal não
implica em não haver mais relacionamento entre os pais e os filhos.
Terminar o vínculo conjugal não significa terminar o vínculo
familiar. Ele existe e existirá sempre”.
Por este motivo é que a psicóloga Mônica Azevedo
alerta que os casos de separação devem ser bem elaborados
para que as crianças ou adolescentes possam vivê-los de
uma forma natural e continuarem a te os dois modelos básicos:
o pai e a mãe”. Embora seja uma experiência sofrida
para os filhos, o afastamento dos pais sem rancores faz com que eles
não percam o contato com a realidade.
Esta opinião é ratificada por Franceli: “É
preciso esclarecer que a separação não significa
o fim do relacionamento”. Ela chegou a fazer uma pesquisa –
empírica, porém válida – com adolescentes,
filhos de casais separados que se recusam a pensar em casar algum dia.
“Para eles, o casamento é instituição falida”.
Ambas concordam, porém, que existem casos em que a separação
é a única alternativa, “se não existe mais
possibilidade de um bom relacionamento entre o casal, que é muito
diferente entre pais e filhos. Este pode, inclusive, melhorar em qualidade”,
diz Franceli. “Quando a criança serve de instrumento de
agressão recíproca entre os pais, ela acaba somatizando
o que sente, sem conseguir expressar, e isso resulta em diversos distúrbios
como de sono, de alimentação, enurese e outros”,
completa Mônica. Outro aspecto importante é o objetivo
do casamento. “Hoje ninguém mais casa pensando apenas em
procriar. O papel da mulher mudou muito. Ela não vive com o objetivo
de ser somente mãe e esposa” diz Franceli . E se acontece
de a mulher ter um filho num momento em que não se sente disponível
para a maternidade, as consequências para esta criança
podem ser graves.
5 Cada um é único
Outro problema sério nas relações
familiares é o da individualidade. Há uma verdadeira invasão,
pelos pais, na individualidade dos filhos que, ou se revoltam para reivindicá-la
– e aí são considerados rebeldes – ou passam
para uma atitude de passividade perante as coisas. “Viver junto
é praticar o exercício de conviver com a individualidade
dos outros”, diz Mônica Azevedo.
Normalmente, em famílias numerosas, existe uma indiferenciação
entre os filhos: todos são criados do mesmo jeito, sem levar
em consideração as particularidades de cada um. “Este
tipo de atitude não ajuda as crianças a desenvolverem
seu referencial interno. Cada um responde ao mesmo estímulo de
uma maneira diferente e por este motivo também não se
deve fazer comparações entre as crianças. Cada
uma precisa ter consciência de sua importância e do seu
espaço”, analisa.
Por outro lado, pais muito perfeitos podem criar filhos com sérios
conflitos. “Há crianças que querem ser perfeitas
porque acham que só assim serão amadas e, como nunca conseguem
alcançar a perfeição, ficam deprimidas e podem
ter sérios problemas de relacionamento com outras crianças,
que só querem ser crianças”, explica Mônica.
As pessoas reproduzem fora de casa o que vivem dentro dela. Famílias
dinâmicas, com um relacionamento franco e aberto criam pessoas
mais sadias, livres para tomarem atitudes e com fácil adaptação
ao meio social. Se existe uma troca, principalmente afetiva, empobrecida
no nível familiar, a tendência é a criança
se fechar ao entrar em contato com o meio externo.
6 Repensar
As relações familiares são
bastante complexas. Os valores de convivência e de relacionamento
estão sendo alterados pelas próprias mudanças na
estrutura social. Mas a célula familiar permanece e ninguém
pode negar que o que somos hoje depende muito daquilo que fomos em criança
e da forma com que nossos pais nos apresentam a vida. Existem muitos
aspectos a serem considerados além destes. Vale repensar. Vale
analisar e procurar melhores caminhos para uma relação
mais dinâmica, mais verdadeira e mais feliz.
Entrevista ao AT Especial
11/10/86
Mônica de Lima Azevedo
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