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FEITIÇO DA LUA
Já era noite e eu
dirigia por uma larga avenida.
Ainda não era o caminho de casa, pois meus trabalhos terminam quase
na hora de recomeçarem. Não é fácil ganhar
a vida honestamente, mas eu não pretendo fazer isso de outro jeito.
O cansaço e a tensão fazem parte dessa rotina, que o rádio
do carro ajuda a contornar, junto com a certeza de que a próxima
parada será nos braços da mulher amada. Mas o caminho ainda
era longo...
O trânsito não ajudava, mas o “anda e para” permitia
que eu observasse o veículo ao lado, as pessoas nas calçadas,
os motociclistas fazendo “das suas”. Aquilo que se vê
todo dia!
Olhei um pouco mais alto: a iluminação da avenida era nova
e cintilava a luz de lâmpadas que duram centenas de horas sem manutenção.
Eram mistas ou de vapor metálico? Minha mente ainda cartesiana
sempre busca explicação para tudo. Mas não dava para
olhar muito tempo: elas ofuscavam!
Eu observava o em torno, mas a paisagem urbana era a mesma. Eu fazia vários
caminhos para quebrar essa monotonia, mas eles também já
haviam esgotado seu efeito.
Desliguei o rádio e os únicos ruídos que ouvi foram
dos carros, ainda esperando por um sinal verde que curasse temporariamente
aquela trombose urbana.
Lembrei da música “Sinal Fechado”, mas os vidros estavam
fechados e escurecidos pelo temor das ruas. Eu mal conseguia ver alguém
através deles e, provavelmente, era uma mera silhueta para os outros.
Não dava nem para dizer: “Olá, como vai?”.
Coisas de cidade que tem muita gente, mas que vai progressivamente perdendo
a humanidade; que vive num caos permanente, que nos consome às
vezes sem que notemos ou sejamos notados.
Entrei numa espécie de transe e fixei meu olhar no “nada”,
num ponto distante onde o pensamento se sobrepusesse ao material. Mas
o “nada” não estava vazio: havia nele uma enorme Lua
Cheia!
Mas ela sempre esteve lá! O que havia de diferente naquele satélite
natural que eu já vira ao vivo na televisão, em 1969? Que
eu já esmiuçara pela luneta de casa? Que mudava de fases
há milhões de anos? Que fazia a maré subir e descer,
e os cabelos crescerem mais ou menos, além de inspirar dietas?
A diferença também não estava no céu limpo
que permitia sua nítida visão, mas na maneira como eu a
percebi naquele momento de solidão coletiva:
Era quase possível tocá-la! Ela parecia estar logo ali,
como se fosse uma das luminárias da avenida, só que infinitamente
mais bela.
Naquele momento tive a exata noção do universo. Senti a
leveza da Terra flutuando no espaço.
Não havia nada, absolutamente nada de monótono naquilo!
Eu poderia passar horas olhando para ela. Talvez até tentasse alcançá-la!
Será que o combustível daria?
Mas o trânsito voltou a andar e o caminho foi outro.
O consolo foi que a Lua ainda estaria lá e que, com a graça
de Deus, a mulher amada também.
Adilson
Luiz Gonçalves
Mestre em Educação
Escritor, Engenheiro, Professor Universitário (UNISANTOS e UNISANTA)
e Compositor
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