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FIO DE VIDA
Thamara, ou, melhor, Tuca,
ou, melhor ainda, Tuquinha nasceu especial: uma leve pluma, um pequeno
e frágil anjo entre nós!
Logo souberam que ela nunca andaria, jamais poderia ir à escola,
não poderia fazer planos para o futuro. A única certeza
é que ela precisaria ser uma lutadora, totalmente dependente do
amor de seus pais.
Crianças especiais precisam de pais especiais. E Tuquinha os tinha!
Prontos para mover mundos e fundos para lhe dar os cuidados sem os quais
aquele tênue fio de vida logo esvairia.
Eliane e Nilson, os pais, são daqueles casais que você não
consegue ver um sem o outro: corda e caçamba, goiabada com queijo.
Onde muitos fraquejariam, eles mostraram que amor que tinham entre si
poderia superar qualquer desafio que a vida pudesse lhes apresentar. E
não eram poucos... Mas eles enfrentavam cada um com fé e
garra: uma esperança que desafiava e motiva até aos mais
céticos.
Quando Thiago chegou foi uma alegria, também: Tuquinha tinha um
irmãozinho!
Ele foi crescendo... Aprendeu a andar... Começou a falar... E na
sinceridade e pureza que toda a criança tem, um dia ele perguntou
aos pais: “A Tuquinha não corre?”. Eles explicaram
para ele que quando ela dormia fazia, em sonho, as mesmas coisas que nós.
E não é verdade?
O tempo foi passando e os cuidados com Tuquinha foram aumentando. No entanto,
era nítido que quando os pais, o irmão e todas as pessoas
que a amavam estavam por perto, ela sentia suas presenças. Ela
estava ali, de corpo e alma! O fio de vida era mais forte do que parecia!
Mas as convulsões eram cada vez mais intensas e o espaço
entre elas, cada vez menor.
Em 2007, ela quase nos deixou, mas ainda não era o momento de partir.
Ela não ia à escola, nunca havida ido! Mas ainda tinha muito
para nos ensinar! E os pais faziam de tudo para manter a “professorinha”
na ativa.
O pai havia aprendido com o basquete a desvencilhar-se das marcações
sob pressão da vida. Com maestria, jogava todas as vicissitudes
no cesto. A mãe usava o swing do jazz para não perder o
tempo da dança do viver. Thiago também estava lá,
para aprender com os três, como em qualquer família. Mas
não era uma família qualquer: Deus estava ali!
Mas, certo dia, veio uma convulsão mais forte e o fio de vida rompeu-se:
nos braços do pai, Tuquinha desatou aquele simples nó que
a manteve por poucos, mas bem vividos anos entre nós. Descansou...
Fio de vida duradouro esse! Um único e estreito fio de vida que
o amor e a fé de seus pais tornaram forte como a seda, e serviu
para tecer uma existência que marcou profundamente a vida de todos
que a conheceram.
Fica difícil, quase impossível consolar pais que perdem
um filho, mas Deus sempre nos surpreende:
Ao saber que Tuquinha havia partido, Thiago, agora pré-adolescente
lembrou os pais: “Agora ela pode correr!”.
Adilson Luiz Gonçalves
Mestre em Educação
Escritor, Engenheiro, Professor Universitário (UNISANTOS e UNISANTA)
e Compositor
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