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Sobre
o autoconhecimento
Luiz A. G. Cancello
Escritor e Psicoterapeuta
Muito se fala em autoconhecimento. Mas o que é isso, afinal? Ninguém
vira os olhos para dentro e conhece a si mesmo “diretamente”.
Todo conhecer-se passa por uma linguagem e por uma filosofia, uma ideologia,
um sistema de idéias.
Vamos a alguns exemplos. Quem dizemos que se conhece, ou que busca o autoconhecimento?
Religiosos, místicos, certos artistas, um tipo de paciente de psicoterapia,
entre tantos outros. Mas o caminho de cada um deles é muito diferente!
Para o religioso, o conhecimento de si passa por orações,
rituais, um pedido à divindade para que lhe conceda a graça
de conhecer a si próprio. Um iogue ficará muito tempo em
suas asanas, buscando chegar à intimidade do ser. Bem diverso é
o artista, digamos um pintor, que expressa nos quadros seus tormentos
interiores, buscando compreendê-los. (É bom lembrar que muitos
pintores não concordariam com essa descrição.)
Alguns pacientes de psicoterapia chegam ao consultório e dizem:
— Doutor, eu não tenho nada, nenhuma doença psíquica.
Estou aqui para me conhecer.
O que acontece, daí em diante? Inicia-se um diálogo, cujo
desenrolar depende, em grande parte, da abordagem teórica do psicoterapeuta.
Esquematicamente (a realidade é bem mais complexa!), podemos dizer
que um psicanalista dará uma atenção especial aos
relatos da infância de seu cliente. Um terapeuta jungeano procurará
configurações arquetípicas na fala do outro; um seguidor
de Reich trabalhará o corpo daquele que o procurou, enquanto o
existencialista dará maior atenção ao modo como o
cliente cuida de seu tempo de vida, em direção a um projeto.
E assim poderemos fazer sinopses de cada atitude dos diferentes profissionais.
O importante, para nosso propósito, é que cada um dos clientes,
se a terapia for bem sucedida, terá, ao final, a sensação
de conhecer-se melhor. Estradas diferentes foram trilhadas; o tal “autoconhecimento”
não será o mesmo em todos os casos. Ou será?
Conforme nosso olhar, nossa maneira de ver o mundo, procuraremos semelhanças
ou diferenças entre os diversos processos. Com certeza encontraremos
algo que se assemelha. Mas na paisagem atual, de rica diversidade, aquilo
que é igual ou parecido não deve obscurecer as enormes diferenças.
As pessoas têm, a seu dispor, muitas maneiras de se conhecer. As
culturas oferecem um enorme repertório de práticas para
isso. No mundo globalizado, a ioga não está mais restrita
aos indus, o zen já se espalhou muito além do Japão,
as psicoterapias ganharam os cinco continentes. Os caminhos do autoconhecimento
são muitos, e temos de respeitar cada um.
Gostaria de acabar este breve artigo enfatizando que o conhecer-se passa,
necessariamente, por alguma linguagem, por um diálogo com outros
homens, enfim, pelo “exterior”. Ninguém atinge o “interior”
sem fazer esse percurso.
É preciso sair de si para voltar a si.
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